Opinião
Afinal, o lobo mau era inocente!
| Fátima Albuquerque * Ainda lembro... tinha 8 anos, quando um dia a professora leu a história de chapeuzinho vermelho na escola. Lobo malvado, desalmado! Fazendo medo à pobre garotinha... E a avó? Coitada! Enganada miseravelmente! Mas, havia qualquer coisa na história que sempre me deixou confusa: porque uma criancinha iria atravessar uma floresta sozinha para visitar a avó, se eu não podia ir sozinha na esquina??? Muitos anos depois, numa conversa descontraída, Sávio Almeida me alertou: ?O culpado nunca foi o lobo e sim os pais da criança: a mãe que enviou a menina sozinha à floresta, sabendo que lá existia um lobo, e o pai porque não se preocupou de fazer uma caça ao lobo e ainda deixou a sogra ou a mãe morar sozinha na floresta?. Vivemos num País que dizem ser cheio de lobos: a violência, o desemprego, a corrupção, o próprio jeitinho brasileiro, para citar alguns. Estas feras espreitam, assediam, desrespeitam. E eu fico pensando: o que nos motiva a conviver com isso? A fragilidade de um sentimento de pertencimento? Uma baixa auto-estima? Uma revista de circulação nacional mostrou essa semana uma reportagem do ex-parlamentar Severino, deitado numa rede com um telefone no ouvido, dizendo que sem sair da rede, ele contava com cem mil votos e que tinha doze prefeituras comendo em sua mão. Ontem, a caminho da faculdade, li um outdoor que estampava uma mensagem, aparentemente financiada por uma associação de moradores, que agradece ao prefeito e a um parlamentar a feitura de um calçadão, que certamente foi construído com o dinheiro público advindo dos impostos pagos pelos cidadões/ãs. Mas espera aí! Isso me lembra o Hobbes que diz que o que obstrui a igualdade entre os seres humanos é ?a concepção vaidosa da própria sabedoria, a qual quase todos os homens supõem possuir em maior grau do que o vulgo... porque dificilmente acreditam que haja muitos tão sábios como eles próprios?. Ora, sabemos que vivemos em um País cheio de graves problemas sociais, mas não de idiotas! O País está mudando e a aparente astúcia de alguns já não engana a grande maioria. Aprendemos a partir de nossa história que nem o suposto silêncio imposto pela ditadura de fato existiu. É verdade que ainda temos muitos oprimidos pela fome, desemprego e falta de liberdade. Mas, também é verdade que existem setores organizados da sociedade civil em constante luta pela efetivação dos direitos humanos e políticas sociais que culminem em um projeto de desenvolvimento que respeite a vida e a dignidade. (*) É professora da UFAL.