Opinião
Terrorista quem, cara p�lida?
| Jenner Bastos * Vivemos em uma sociedade que não distribuiu, em níveis minimamente satisfatórios, a riqueza nacional produzida; não foi suficientemente hábil para sanear racionalmente as suas cidades; não resolveu adequadamente a grave questão fundiária; sempre tratou com desprezo e incúria a saúde pública e; numa lista enorme de problemas, não agregou o verdadeiro valor que realmente conta para qualquer que seja o desenvolvimento digno deste nome que é a educação genuína e de qualidade para todos. As causas desses desatinos são muitas. Constitui-se em objeto das ciências sociais o estudo dessas causas para prover a orientação de caminhos que iluminem a implantação de políticas públicas sérias que não mais nos conduzam a repetir erros históricos. Precisamos encontrar um horizonte de possibilidades que nos aponte para cenários alvissareiros de futuro e isso é perfeitamente razoável de ser alcançado. No entanto, os problemas domésticos não devem nos cegar a ponto de nos impedir de olhar para o mundo que nos cerca. Há alguns meses foi assassinado, pela incompetência e pelo preconceito da polícia inglesa, o brasileiro Jean Charles de Menezes, alvejado com mais de meia dúzia de tiros. Um abuso de poder e um ato de covardia, pois o pacato eletricista se encontrava desarmado e, portanto, em condições de assimetria em relação aos seus algozes, constituindo-se numa reação desproporcional. É importante ressaltar que aqui uso o termo assassinado e não simplesmente o termo morto, este último um eufemismo de teor político e uma concessão não merecida a pretensos elegantes cavalheiros que eventualmente cometeram um ?engano?. Agora, a soldadesca de Israel, em mais um ato noticiado ao se lançar mão do eufemismo reação desproporcional, assassina sete cidadãos brasileiros, além de muitos outros de nacionalidades diversas, a maioria dos quais eram cidadãos libaneses. Os brasileiros se encontravam visitando parentes no Líbano, mas se depararam com uma morte estúpida. Com o argumento de varrer do mapa o movimento de resistência Hizbollah que luta contra a ilegal ocupação de terras árabes pelo Estado de Israel, ocupação essa reiteradamente condenada pela ONU, mas com o apoio incondicional dos Estados Unidos da América, este Estado comete deliberadamente esses bárbaros crimes. O seqüestro de dois soldados israelenses, que não podemos aplaudir, não constitui motivo justo algum para tamanho ato de terror. (*) É doutor em Física Teórica pela ETH-Zürich e professor da Ufal.