Opinião
Barb�rie globalizada - Editorial
Chocado, o mundo (dito civilizado) acompanha mais uma tragédia sangrenta, desta vez tendo o Paquistão como cenário mortal. O impacto pelo assassinato da ex-primeira ministra Benazir Bhutto não deve ter o evanescente poder de varrer para baixo do tapete da memória o igualmente impactante fato de que, junto com ela, no momento de seu sacrifício, foram sacrificadas mais duas dezenas de pessoas; e que, quando da chegada de Benazir Bhutto do exílio, em outubro deste ano, pelo menos mais 140 vidas foram eliminadas noutro atentado. Dissipam-se, fato após fato, as ilusões sobre o advento da paz neste século 21. Pelo menos nestes primeiros anos, acontece o contrário do sonhado. Mais mortes, mais guerras, mais terrorismo, muito mais intolerância religiosa. País estratégico, fronteiriço com potências emergentes como a China e a Índia, vizinho do calcinado Afeganistão e do explosivo Irã, o Paquistão exibe uma torturante história, marcada pela violência política desde quando fazia parte da Índia, de quem tornou-se independente em 1947, como fruto da repartição daquela antiga colônia, a então jóia asiática da coroa britânica. O nome do país já diz a que veio, pois a palavra foi inventada por jovens radicais islâmicos e significa ?país dos puros?. Essa concepção sectária de pureza mulçumana serviu de ninho para o surgimento do Taliban. Aliado ferrenho dos Estados Unidos, o atual governo paquistanês, apontado como principal responsável por esse caos, vê-se em dura encruzilhada: nem o governo Bush, nem seus áulicos paquistaneses, aceitarão um resultado eleitoral que mude esse alinhamento global; nem as roucas vozes das entranhas do Paquistão (mesmo brigando entre si) deixam dúvidas de que, em votando, derrotarão Bush e seus aliados. Desgraçadamente, o mundo globalizado segue como dantes, vitimado pela barbárie.