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Opinião

De Lampi�o a Sandrinho

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| Elaine Pimentel * No fim de semana que passou, todos os jornais alagoanos publicaram, em primeira página, as fotos dos corpos do temido Sandrinho e de seu comparsa Galo Cego, mortos em troca de tiros com a polícia. Exibidos como troféus para o povo de Alagoas, a cena muito nos fez lembrar a captura do bando de Lampião e a exibição de suas cabeças em 1938. Em ambos os casos, não bastou a morte. Foi necessário a expiação dos corpos, mesmo depois de mortos, como prova de que, supostamente, o bem venceu o mal. Satisfeita com o recente acontecimento, a sociedade alagoana se reveste de um êxtase doentio, de uma felicidade mórbida, por saber que há um Sandrinho a menos no mundo. Assim como Lampião, Sandrinho era temido por deixar um rastro de mortes por onde andava. Enquanto o cangaceiro agia nos sertões, o rapaz de 18 anos atemorizava a região do Benedito Bentes. Ambos acabaram se tornando mitos e passaram a povoar mentes férteis, que ora os condenavam previamente, ora os consagravam como justiceiros. Até recompensas foram oferecidas por eles, tal como no Velho Oeste. Com a morte de Lampião e seu bando, o cangaço dá seus últimos suspiros e padece. Naquela época, matar Lampião significava matar o próprio cangaço, o que efetivamente só vem a ocorrer em 1940, com a morte de Corisco e a prisão de Dadá, sua esposa. Contrariamente, no entanto, a morte de Sandrinho e a absurda exposição de seu corpo morto não ensejam o fim de uma era de medo e terror, não representam a redução da criminalidade no Estado de Alagoas e nem tampouco no Brasil. O Sandrinho alagoano é apenas mais um homônimo, por exemplo, do menino de rua Sandro, sobrevivente da chacina da Candelária no Rio de Janeiro e envolvido no fatídico seqüestro do ônibus 174, que culminou com a morte de uma refém, numa ação, no mínimo, desastrada. Ao contrário do que se pensa, a morte de Sandrinho não é uma vitória para a sociedade alagoana. É, de fato, a exposição de um grave sintoma da derrota paulatina que vem sofrendo a própria instituição estatal, que através de sua omissão fabrica, cotidianamente, Sandros, Sandrinhos, Josés, Lucas, Andrés, Antônios, Pedros, Carlos... Não importa o nome que se dê a esses ?Sandrinhos?. Ao contrário de Lampião e seus companheiros, eles não formam um bando, eles formam gerações inteiras que têm muito pouco a perder, na medida em que, ao longo da vida, tiveram muito pouco a ganhar. (*) É professora de Filosofia do Direito da Ufal.

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