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Nada a declarar

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| IVO WERNECK * O que o senhor ou senhora sentiria se tivesse um filho desaparecido por razões políticas e, indagando, ouvisse do ministro da Justiça que nada tinha a declarar ? Centenas ou milhares de pais e parentes de mortos e/ou desaparecidos políticos pelo governo no regime que acinzentou os céus brasileiros nas décadas de 60 e 70 sentiram o desprezo e a omissão das autoridades da época. E muitos, ainda hoje, esperam por respostas. O golpe de Estado de 1964, chamado incorretamente de revolução, teve sua origem em ideologia anticomunista e não atingiria diretamente a juventude. Uma verdadeira revolução deve ocorrer a partir das aspirações da grande maioria do povo, pela via das armas, para derrubar o poder despótico, impopular ou tornar uma nação independente. Como exemplos na história mundial, podemos citar a Revolução Francesa e a Revolução Russa. No Brasil, porém, houve o segundo golpe em 1968, este violento e cruel contra o povo brasileiro indistintamente, ao tempo da promulgação do abjeto AI-5 ? Ato Institucional nº 5. Antes de serem comunistas ou marxistas, os rapazes e moças dos anos duros da ditadura eram em sua maior parte apenas jovens estudantes inconformados com a ausência de democracia, com a arbitrariedade e a violência física praticadas contra pessoas de todas as camadas sociais e atividades, sem distinção; os então denominados subversivos. E pagaram o idealismo com a prisão, tortura e morte. Muitos reagiram igualmente com violência. Olho por olho, dente por dente. Havia, verdade, comunistas de cartilha, com ideologia política enraizada há anos ou décadas. Os estudantes de 68, porém, possuíam superficiais idéias do que realmente significava comunismo. Eram, em maior número, inocentes úteis no próprio linguajar do governo. Ao anoitecer nos anos setenta, toda a praia de Botafogo e seus viadutos, na cidade do Rio de Janeiro, eram ostensivamente bloqueados a fim de que o sr. Armando Falcão, ministro da injustiça, chegasse ao prédio onde morava, como sempre isolado do povo. O povo ao qual sempre respondia através da Imprensa: ? Nada a declarar. (*) É engenheiro eletricista.

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