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Patr�o e vira-lata

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| SÉRGIO COSTA * Ele se levanta às cinco da matina. Enquanto a mulher prepara a marmita, nosso herói quebra o jejum com um rápido e minguado café. Depois sai correndo para pegar o transporte. Tem que chegar às oito, senão pode perder o emprego. Trabalha até às doze, quando sai para o almoço. O intervalo é de duas horas. Depois de saborear o último caroço de feijão, o corpo cansado se dobra para uma rápida sesta. Acorda meio assustado, molha o rosto e corre para bater o ponto das quatorze. Devia trabalhar mais quatro horas, mas nem sempre sai às dezoito. O ônibus de volta está sempre lotado e raramente cumpre o horário. Chega em casa exausto. Depois do jantar tenta assistir ao noticiário político, mas adormece com a patroa lhe fazendo cafuné. Essa é a rotina de milhões de trabalhadores que produzem, pagam impostos e empurram este País para frente. Talvez por ironia do destino, ele também é patrão. Alguns de seus empregados, ao contrário, não têm hora para acordar e trabalhar. Não batem cartão de ponto, andam de avião e/ou carro de luxo. Recebem altos salários e gratificações. Além das verbas secretas, ganham polpudas e precoces aposentadorias. Ademais, são reverenciados como reis. Recebem esse tratamento vip para, em síntese, defender os interesses do patrão. Mas são insaciáveis e querem mais. Suas paixões são como as torrentes de um rio a romper as represas da lógica e do bom senso. Usam a imunidade parlamentar para proteger seus desvarios. Mentem, surrupiam, omitem-se, corrompem, são corrompidos. Brigam entre eles até para subtrair a merenda escolar dos filhos do patrão! Tudo isso é vergonhoso e repugnante. Dá nojo. Mas dizem que faz parte das táticas do jogo político! Quando uns descobrem os podres dos outros, o mau cheiro vai parar nas CPIs. De lá, vai até a última instância da justiça, quando é devolvido para sociedade! Os patrões inalam a fedentina, mas pouco ou quase nada podem fazer. Sequer podem cancelar a procuração do representante vigarista ou do falso juiz. Às vezes vão para as ruas reclamar suas chagas. Mas a polícia e a justiça, que eles também pagam, não perdoam essa atitude antidemocrática! A primeira usa o cacetete e o camburão. A segunda é para eles inacessível, é um sonho de liberdade que eles carregam até a morte. As CPIs divulgaram as fotos dos transgressores, mas frustraram mais uma vez nossas expectativas profiláticas. Não menos pior: deixaram muito claro que enquanto o empregado político tem vida de rei, seu patrão (o verdadeiro soberano) é tratado como vira-lata! (*) É contador.

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