Opinião
Saudades e desafios - Editorial
Numa sentida perda prematura, Alagoas está sem o seu principal expoente nas áreas de pesquisa, preservação e divulgação dos folguedos populares. Intelectual discreto, modesto ao exagero, Ranilson França deixa uma lacuna cujo preenchimento não se pode divisar no horizonte ? mas deixa, igualmente, um legado imortal. Colaborador da Gazeta de Alagoas há muitos anos, o estudioso dos folguedos alagoanos deixou-nos dois artigos inéditos, que, infelizmente, serão postumamente publicados em breve. Nas nossas páginas impressas, na mídia televisiva e na Rádio Gazeta este incansável propagador da cultura popular alagoana ensinou sobre nossas raízes, apresentou os astros e estrelas dos folguedos centenariamente preservados nas periferias, nos terreiros. A ele, nossos agradecimentos e nosso reconhecimento pela produtiva parceria. E, muito antes que virasse modismo se falar em valorizar a auto-estima, esse professor já alardeava a excelência dos folguedos populares alagoanos, não se cansava de repetir que Alagoas só tinha do que se orgulhar, do que se envaidecer, das belezas de todas as manifestações reunidas sob o rótulo (às vezes preconceituoso) do folclore autêntico. Ficou um legado, um patrimônio intangível (no reconhecimento dos mestre e mestras, nos projetos em andamento, no acervo iconográfico e sonoro, etc.) e fica um instigante desafio: quem topa seguir adiante nesta luta? Certamente muitos estarão se inscrevendo como voluntários. Certamente não haverá uma pessoa que lhe seja cópia, ou clone perfeito ? mas é certo que o potencial desbravado pelo trabalho de anos é um emocionante chamado à permanência da obra, à continuidade do esforço. Alagoas, rica e sofrida em sua cultura, não pode mais perder tempo, desperdiçar valores. Quem parte, além de deixar saudades, lega ensinamentos, indica caminhos.