Opinião
Processo de avalia��o
| HUMBERTO MARTINS * Duas matérias da maior relevância nas economias do Brasil e do mundo ? energia e exportação ? deverão ser avaliadas, em profundidade, de agora em diante, para assegurar que as metas econômicas do País prejudiquem os interesses do consumidor nacional. Explica-se. Alguns economistas atribuíram os recentes aumentos nos preços do álcool, no mercado interno ? em plena safra do Sudeste, maior região produtora ? aos bons preços oferecidos no mercado internacional. Se essa perspectiva se confirmar, os responsáveis pela política econômica precisarão encontrar uma maneira de conciliar as metas de exportação com as necessidades dos milhões de indivíduos que utilizam automóvel no Brasil. Retrucar, simploriamente, que os carros bi-combustíveis e tri-combustíveis ? cujos proprietários podem optar por gasolina, álcool ou gás com a simples movimentação de um botão no painel ? reduzem a matéria a uma elementar questão de custo-benefício, não satisfaz, porque a mistura obrigatória de álcool anidro à gasolina atrela o preço do derivado do petróleo à oscilação do preço do álcool. Em nenhum setor da vida nacional, a competência brasileira se saiu melhor, nos últimos tempos, do que na busca de carburantes alternativos. Enquanto a energia gerada por hidrelétricas faz o Brasil depender do regime de chuvas, a opção por variados carburantes cresce entre nós a cada momento. Após a retomada do Próálcool, começou a produção do bio-diesel, atrelando o desenvolvimento energético ao fortalecimento de várias culturas. Mas é preciso não esquecer que o desaparecimento do álcool dos postos de abastecimento e a importação desastrada de produto de baixa qualidade reduziram a fabricação de carros à álcool quase a zero, na primeira etapa do Próálcool. E nas raízes dos impasses que criaram essa situação estava a valorização do preço do açúcar no mercado internacional, à qual se acrescenta agora a busca do álcool em um número cada vez maior de nações. Conduzida com lucidez, a questão pode gerar, cada vez mais empregos e progresso. Mas se isso não ocorrer são acentuados os riscos de prejuízos contundentes para a economia e o consumidor. No Brasil, a produção de álcool baseia-se exclusivamente na cana-de-açúcar, que, cultivada em escala crescente, muda o perfil da agricultura nacional. No mundo, o álcool tem a soja e o milho como matérias-primas, o que já provoca alterações acentuadas nos preços internacionais desses produtos. (*) É ministro do STJ.