Opinião
O real
| DOM FERNANDO IÓRIO * Não se trata de finanças, senão daquilo que desperta oposição com o imaginário. Real vem do latim ? res ? rei que significa ? coisa. O real é o que é, existindo verdadeiramente. O real não é somente possível, senão, também efetivo. Tudo porque o real é limitado, já o possível é imenso, como escrevia Lamartine, querendo pôr às claras a amplitude do domínio da imaginação e da criatividade. Tudo quanto é sonho não é real, mesmo que se realize um dia, assim pensava Theófille Gautier. Não queremos raciocinar em pista falsa. Partimos daquele ponto, de que o concreto e o abstrato são, tanto um como o outro, reais: são as duas faces da realidade: a externa e a interna. O concreto é a coisa, tal qual é apreendida pelos nossos sentidos. A idéia é a coisa apreendida pela nossa inteligência, pelo nosso espírito. O concreto é, necessariamente, algo singular, individualizado. É aquela árvore, esta laranja, aquela mulher, aquele homem (Pedro, João, Emílio). O espírito pode abstrair tudo pelo que tal árvore é uma árvore e não um animal, esta laranja é uma laranja e não uma pêra. Tudo pode nisto se resumir: o real são as idéias. É o real visto pelo interior, além do sensível, pelos olhos do espírito. Platão, na Alegoria da Caverna, mostra que, no seu modo de ver, apenas as idéias eram o real. A filosofia Cristã, com Tomás de Aquino, chega a afirmar que apenas Deus tem em si a idéia perfeita de todas as coisas. É de ver, nosso pobre espírito humano somente consegue conceber a idéia aproximada de cada coisa. A idéia não é uma palavra, nem ficção imaginária. Não deixa ela de ser uma coisa, a medula, a própria substância da coisa. Sobre a idéia afirmava Platão: ?O pensamento a contempla, mas não cria?. Decididamente, os artistas bem que compreendem isso. Tudo porque têm eles a certeza de que a exprimem, quer seja nas telas, no mármore ou na harmonia dos sons. Não criam, mas reencontram. César Franck, excelente compositor, confessava sobre a famosa composição que fizera: não fiz, nem escrevi, eu a encontrei. Adaptar-se ao real é, de certa maneira, ver as coisas como Deus as vê, na medida de nossa possibilidade. Se nos considerarmos criadores das idéias, ao contrário de César Franck, que se considerava descobridor, chegaremos, de logo, a julgar-nos donos destas idéias, pensando que podemos fazer o que quisermos, modelá-las a nosso bel-prazer, conforme as fantasias de nossa imaginação ou as exigências de nossa tirania. Não é necessário ter idéias largas. As idéias são o que são. Alargá-las é deformá-las. Sua verdade está em Deus, nunca em nós. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.