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Os sem-bandeira

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| PATRÍCIA GAMA RAMALHO * Neste ano de 2006, empunhamos a bandeira do Brasil e, com orgulho e entusiasmo nós, brasileiros, fizemos a nossa parte: com o coração cheio de esperança torcemos para que a seleção brasileira trouxesse o hexacampeonato de futebol para o Brasil. Infelizmente, rapidamente, fomos obrigados a desistir de nossa campanha e ao enrolar nossas bandeiras, nos sentimos também enrolados pelos nossos jogadores. Pudemos observar as expressões de tristeza e decepção em cada torcedor e o desapontamento pela derrota vergonhosa que sofremos. Sabemos muito bem que levantar uma bandeira é defender uma causa na qual acreditamos e pela qual estamos dispostos a lutar. Já há alguns anos, uma prática se estabeleceu, nos meses que antecedem às eleições políticas no Brasil, e uma categoria passou a se instalar nas calçadas das principais avenidas da cidade: os sem-bandeira. Aqueles que ficam segurando bandeiras de candidatos com expressão semelhante a que ficamos quando da derrota do Brasil no último mundial de futebol. Sim, são eles os sem-bandeira. Estão ali por alguns trocados que receberão ao fim do dia. Não porque estejam militando naquela campanha. E a expressão desses cidadãos brasileiros que se sujeitam a tal tarefa, dando mais uma prova do desemprego nesse País, incomoda e faz doer os nossos corações, muito mais do que no dia em que ficamos fora da Copa do Mundo. Afinal, apesar de termos percebido a falta de compromisso dos jogadores brasileiros para com a camisa verde e amarela, sabemos muito bem que no esporte sempre tem que haver um ganhador e um perdedor. Já em se tratando de eleições políticas, o correto seria garantir ao povo a vitória, sempre. Partidos e candidatos permitindo esse tipo de propaganda estão é dando bandeira e deixando transparecer o quanto está tudo errado: a falta de empregos decentes que evitem que cidadãos brasileiros se sujeitem a protagonizar essa cena tão deprimente que é segurar uma bandeira sem que ela esteja sendo levantada, empunhada. É a constatação de que uma boa parcela de nossos políticos e governantes que pedem os nossos votos para trabalhar pelo País, representando o povo brasileiro, não tem nenhuma bandeira. E assim tem sido a vida do brasileiro. A toda hora estamos sendo obrigados a enrolar nossas bandeiras, seguindo sem esperanças de um dia conquistar a cidadania plena, condizente com um País tão rico e com os progressos conquistados pela humanidade, em pleno terceiro milênio. (*) É arquiteta e urbanista.

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