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Bandeiras que acenam para a mis�ria

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| FÁTIMA ALBUQUERQUE * É hora do almoço e, num desses raros dias de sol de inverno, penso na sensação de calor que deve sentir uma pessoa que, nesta hora, anda na rua. Uma cena me chama a atenção: um mar de bandeiras que se perfila ao longo da avenida. Bandeiras e pessoas se misturam num confuso bailado. Uns olham para o lado apenas se escorando na bandeira, outros seguram a bandeira em posição invertida, outros, arrumaram um cordão e amarraram a bandeira num poste e assim descansam o braço. Uma ou outra pessoa agita a bandeira, como se a cada 5 minutos aquele gesto tivesse que ser repetido. Uma moça, alheia a tudo que a cerca, dança e sacode a bandeira, no ritmo do carro de som, cujo motorista está tirando uma soneca. Sinto que bandeiras e pessoas não formam um quadro harmonioso, mas agoniado. Guernica? Essa história de bandeiras no Brasil teve uma rota de desencontros, extermínios e escravização. A história revela que as bandeiras foram movimentos de explorações territoriais, financiados por particulares (senhores de engenho, donos de minas e comerciantes), que procuravam por pedras e metais preciosos e capturavam índios e escravos fugitivos para mão-de-obra. Coincidência? Qualquer que seja a bandeira acima citada, a verdade é que elas nunca serviram para construir, na nação, um sentimento de dignidade e pertencimento, mas de revolta e humilhação. É, os tempos são outros... pelo menos o calendário assim diz. Porém, no que se refere aos dias atuais, mais do que o nome do candidato a bailar ao sabor do vento, bailam as identidades dos que seguram as bandeiras. São homens e mulheres que desempregados e excluídos da oportunidade de acesso a uma vida edificante e laboriosa, se submetem a condições degradantes de trabalho, isto é, falta de carteira assinada, baixos salários, instabilidade social. Alguns levantarão as vozes e dirão: ?Pelo menos ganharão dinheiro até a eleição! Pelo menos estão ganhando um dinheirinho para comer!? Hipocrisia? Quanto mais bandeiras com estampas de aventureiros chegarem as ruas desse País nesse tempo de cólera e eleição, mais vergonha deveríamos sentir, por não termos perseverado, incondicionalmente, na luta pela justiça social e pelo desenvolvimento de uma nação mais feliz e consciente. Eduardo Galeano diz que na história dos homens, cada ato de destruição encontra sua resposta ? cedo ou tarde ? num ato de criação. Se isso for verdade, nossas futuras bandeiras representarão apenas os ideais do povo brasileiro. Premunição? (*) É professora da Ufal.

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