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Opinião

Ranilson

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| MARCIAL LIMA * Perdemos um amigo. Um amigo que dedicou toda sua vida à luta pela defesa do folclore alagoano: tal como o percebia, tal como o amava. Folclorista, Ranilson tinha uma peculiaridade: exercia, como poucos, a afetividade. Nossos mestres e brincantes não eram para ele, apenas, objetos de estudo, fontes a serem sugadas. Eram companheiros. Mais que isso: eram sua grande família. E, por assim ser, refletiam no relacionamento com o Professor Ranilson as contingências do cotidiano: problemas de saúde, financeiros, familiares, de relacionamento. Em seu sepultamento, Mestra Hilda, andando com muita dificuldade, apoiada por suas filhas, disse-me, sentida e sincera: ?Eu precisava vir. Eu não podia deixar de me despedir de meu amigo?. Esse era o sentimento de todos componentes dos muitos grupos de danças e folguedos populares que acorreram ao Cemitério de São José. Um amigo que partia, que deixava uma lacuna imensa. Não só por ser o estudioso que valorizava o que faziam, mas, principalmente, porque lhes oferecia escuta. Ranilson França se foi a poucos dias de ser homenageado, quando das comemorações do Dia Internacional do Folclore. Um momento extraordinário, reflexo do amadurecimento de nossas instituições (FMAC, Secult, Sesc, Sebrae/APL Jaraguá, Senac, Sesi, Sest/Senat, Ufal-Proex/Museu Théo Brandão, Asfopal, SEE/CorAC, Comissão Alagoana de Folclore e as Secretarias de Cultura de Coruripe, Arapiraca e Marechal Deodoro), que, pela primeira vez em nossa história, deixam de lado as ações desconectadas, narcísicas, egocêntricas e etnocêntricas, para uma manifestação conjunta, colocando acima do individual os interesses coletivos, damos visibilidade a uma causa tão louvada e, ao mesmo tempo, vítima de tantos equívocos. Ranilson França se foi num momento em que a cultura popular tradicional ganha espaço e dignidade, quando das discussões para elaboração de políticas públicas de cultura. Num momento em que já ganha corpo e se avoluma a certeza de que, quando dela tratamos, não nos referimos a meras sobrevivências do passado, mas a reconhecemos em termos socioculturais, historicamente determinada. Ranilson se foi a tempo de não sofrer o constrangimento de ler um de nossos comentaristas políticos, definindo o caricato Zé Muniz como um candidato folclórico. Fato que, numa boa análise, mostra o quanto de incoerência, subliminarmente, alimenta muitos discursos; o quanto de mascaramento existe na definição de nossas raízes identitárias. Para o analista citado, folclórico ainda é o risível, o que não deve ser levado a sério, o que não merece fé ou, por extensão, o anacrônico, o inculto, a degradação do culto, o rude, o rústico, o ingênuo. (*) É ator e presidente da Fundação Municipal de Ação Cultural.

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