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MARCOS DAVI MELO * Ari Barroso transmitia na TV um jogo do Botafogo. O misto de compositor e locutor implicava muito com o futebol de Garricha e descrevia pausadamente: ?Garrincha com a bola. Vai driblar. É claro. Vai driblar de novo. Vai perder a bola. Olha ali, um saçarico pra cá, outro pra lá. Garrincha passa pelo adversário. Assim também não é possível. Vocês estão vendo? Garrincha vai driblar de novo. Vai perder. Por que ele não centrou logo? Claro que vai perder. Gol de Garrincha?. A última frase saiu seca e mal-humorada. Ari continuou implicando com Garrincha e quando Feola partiu com a Seleção para a Suécia, seus reclamos só arrefeciam quando lembravam que afinal de contas, Garrincha seria só um reles reserva e dificilmente jogaria. No dia da decisão final, entre Brasil x Suécia, os amigos Raimundo Nogueira, Haroldo Barbosa e Fernando Lobo, frouxos, fugiram da raia e foram pescar na Barra da Tijuca, sem rádio de pilha. Ficou em Ipanema, devidamente instalado no bar comunitário, o Paulo Mendes Campos, testemunha ocular da história e fonte incontestável desta. O foguetório os fez voltar desabaladamente à Ipanema e ao bar preferido, onde entraram com um grande estoque de talco, sobra do carnaval pernambucano. Na cortina branca que cobriu tudo, viram inúmeros freqüentadores assíduos, menos Ari. Logo, uma voz conhecida clamava da ? porta. Reduzida a serração, a fisionomia exibindo a maior felicidade já constatada na face da Terra, ainda da porta do bar, Ari gritava exaltado: - Estou aqui para penitenciar-me! É o maior! É o maior! Que beleza meu Deus! Que beleza! Que beleza! O Garrincha é o maior gênio que já houve neste país! Que beleza! Que beleza! Quando este artigo estiver sendo lido por algum dos meus três fiéis leitores, a Copa do Mundo já terá começado e, se não der zebra, com uma vitória da França. A ansiedade perdurará. Será o mais longo fim de semana da história. Ainda teremos o sábado e o domingo antes da canarinho estrear na segunda-feira. Até lá teremos que nos contentar com os outros joguinhos. Estaremos torcendo é por um tropeço da Argentina. Frustrados ainda estão os biriteiros, que andam dando tratos na bola em como conciliar os jogos do nosso escrete às 6 horas da matina, com o consumo normalmente elevado de álcool, que julgam necessário nestas ocasiões. Nem todo mundo pode fazer como Churchil, que inevitavelmente tomava um cálice de xerez antes do breakfast e parava por aí. Certo que tomava mais dois uísques no almoço e entornava brandy e champanhe francesa no jantar. Era um pau-d?água. Como um dos 169.999.000 torcedores-técnicos disponíveis, ofereço ao Felipão, embora talvez um pouco tarde, o exemplo do reconhecimento ao talento de Garrincha feito pelo Ari. Pelo que vi até agora da falta de ritmo e de reflexo do Ronaldo Nazário, para esta copa ainda levaria o Romário, nem que fosse para o banco, como o Feola levou o Garrincha e até o Pelé. E vamos torcer com água e sucos de frutas regionais mesmo, embora a turma com a qual compartilhei as duas últimas copas esteja meio desmotivada. Mas atenção companheiros de jornada, aquele angustiado torcedor que passou todo o tenso jogo entre Brasil e EUA em 94 (que vencemos com um golzinho chorado do Bebeto) e que não se afastou um momento sequer da frente da televisão, tendo portanto, ingerido vários engradados de cerveja, sem utilizar uma única vez o banheiro e que, depois do apito final, aliviou-se prazerosamente e demoradamente, esvaziando a bexiga no jardim, inadvertidamente às vistas das senhoras presentes, está aí firme e forte e garante que, por precaução e não por superstição, vai segurar a bexiga até terminar o jogo. (*) É MÉDICO

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