Opinião
Filhos e futebol
| ANDRÉ FALCÃO DE MELO * Assisti a decisão da Libertadores. Preferi o Internacional. Motivos a rodo. Sou CRB. Desde criancinha. Também Flamengo. Desde adolescente. Me incomodava (não vou escrever ?incomodava-me?) pensar no porquê. Tipo: quem torce por dois não é torcedor de nenhum. Já passou. Para mim, resulta da convicção, irrefletida e ronceira, de que seu time de nascença não voará alto. Torcedor de time pequeno. Entende? Aí você passa a acompanhar campeonatos de que seu time não participa. E pra admirar outro é um pulo. Quando se dá conta, virou fã. Sim, porque gostar de futebol, pra mim, implica ser torcedor. E já que o seu, de infância, não tá lá. Alguns passam a amar o novo mais até do que ao primeiro. Mas a maioria (penso) apenas preenche o espaço vazio. E assim você passa a ter dois times do coração. Um, contudo, mais do que o outro, porque ocupa uma maior parte do dito cujo. E se você tiver dúvida sobre qual adora mais, é só ver (ou imaginar) uma peleja entre ambos. Não há como ficar neutro! Pode ser meio incômodo nos dias que antecedem a indigesta partida, mas é só começar e tudo o que você mais deseja é que um deles vença. Sem remorso. O último que vi: CRB 2 x Flamengo 3. Trapichão lotado. Tristeza e raiva. No fim do jogo, parecia que nunca fora Flamengo. De novo, só no dia seguinte. Sempre, só CRB. Hoje, vejo a criançada torcendo por vários. Pura coincidência, meus filhos também são CRB. E Flamengo. A primogênita, por morar em Recife, é também Sport. Natural. Mas quando tá aqui, vira CRB desde criancinha. A mais nova: igual ao pai. O menino, 10 anos, é que me preocupa um pouco. É que é, ainda, São Paulo. E Barcelona. Claro, o Mengo não foi capaz de preencher seu coração. Veja: o meu foi campeão mundial; o dele vive a fugir do rebaixamento para a 2ª divisão do brasileiro. Óbvio que ele precisava arranjar um outro. Então, São Paulo, Barcelona. Porém, não gosto. Como quem não quer nada, sondo se o Flamengo ainda é o seu 2° time. Até agora, sim. Mas nem sei de quem é o mérito. Afinal, quando muito uma Copa do Brasil (verdade!), e contra o velho freguês. Portanto, melhor mesmo vencesse o Inter. Além de suas cores, à míngua do Fla, melhor um campeão de fora do eixo Rio-São Paulo. Mais: o São Paulo poderia sagrar-se tetra mundial. A principal razão, porém: a derrota do tricolor diminuiu-lhe as luzes, que seduzem meu menino. Ora, a gente não deve torcer pelo melhor para os filhos? (*) É advogado.