Opinião
Um revolucion�rio poeta
| TEOMIRTES BARROS MALTA * Tudo acontecia no Brasil às vésperas da Revolução de 30. Insatisfações com o governo de Washington Luis na chamada República Velha (1889-1930), o domínio das oligarquias agrárias com a hegemonia da burguesia do café ligada ao poder de interesses e outros fatores concorriam para que um golpe em outubro de 1930 tirasse o presidente do poder. A Aliança Liberal, o maior partido da oposição, chefiado por Getúlio Dorneles Vargas organizara esse movimento que ficou registrado como sendo o fim da Primeira República. Getúlio tomou posse do governo em 3 de novembro e governou o país de 1930 a 1945. São José da Laje, cidade fronteiriça com Pernambuco, os ecos da Revolução também chegaram por lá. Prefeito da cidade, pela segunda vez, Teófilo Augusto de Barros apoiou os idealistas da revolução de 30. No dia 24 de outubro desse ano, exatamente quando as forças da Aliança Liberal entraram no Catete e depuseram Washington Luis, com a intromissão pacífica do cardeal dom Sebastião Leme, São José da Laje realizou um grande desfile cívico. Após o desfile, o prefeito Teófilo conclamou todos os integrantes da passeata a com ele cantarem de joelhos o hino nacional em frente à matriz da cidade, uma cena emocionante que ficou retida na memória das pessoas por muito tempo. Teófilo de Barros, meu pai, nasceu no Alto do Camaragibe, onde meu avô era abastado proprietário de terras e engenho. Após a morte do pai, as divergências familiares fizeram-no deixar os estudos, o sonho de ser engenheiro, e sair em busca de trabalho, chegando, anos depois, a São José da Laje. Intelectual, sempre ligado aos livros, conheceu meu avô materno, o patriarca Francisco Barbosa, líder político na cidade. Com ele, fundou um jornal, tentando apaziguar os seus anseios literários e científicos na pequena cidade onde iria constituir família. Conheceu minha mãe Otília quando de sua Primeira Comunhão. Contava ela apenas 11 anos de idade. Como convidado de meu avô compareceu à cerimônia religiosa e ao almoço festivo em comemoração ao evento. Impressionado com a graça e beleza daquela menina, dissera para si mesmo: ?vou esperar esta menina crescer e me casar com ela?. E assim aconteceu. Conseguiu educar todos os 15 filhos espalhando sua cultura em todos nós. Depois da fundação do Colégio Guido, veio morar em Maceió. Nunca parou, porém, de ler e pesquisar. Meu pai viveu 51 anos com minha mãe, numa felicidade jamais vista por mim. Depois de sua morte, demonstrou ter perdido o interesse de viver. Adoeceu, foi tratar-se em São Paulo, por insistência da família. Fiz-lhe companhia por alguns dias em casa de nosso irmão Teófilo Filho. (*) É membro da Academia Alagoana de Letras.