Opinião
Quem se incomoda com as cotas?
| Ana cláudia laurindo * Vivenciamos um momento singular, enquanto sociedade brasileira. Instante de significativa expressão para a população afrodescendente, que sai da disseminada postura do foi Deus quem quis assim, a justificar a pobreza relegada ao abandono hereditário, para o centro das discussões e dos debates intelectualizados, onde defensores das políticas afirmativas e conservadores, se confrontam com argumentos sólidos, de ambos os lados. Os que defendem as políticas afirmativas têm como base o déficit histórico que o País tenta compensar, por ter negado à população negra e a seus descendentes, pardos ou não, o acesso aos bens sociais básicos, entre eles educação. Os que condenam as cotas para negros seguram-se no argumento de que a pobreza, como um todo, necessita de políticas que a beneficiem, independente da cor da pele. O discurso de fundo humanista utilizado pelos conservadores fala mais próximo ao ouvido do povo, que está mais acostumado à idéia de que todos são iguais perante a lei. Embora a cotidianidade desminta esse postulado. Acostumamos, porém, a repetir o que dizem, muito mais do que a refletir, sobre o que é dito. Resquício de um tempo, em que falava quem podia e obedecia quem tinha juízo. Tempo de proibição, insegurança pela própria vida. Onde era mais seguro repetir as verdades escolhidas por quem tinha poder e era capaz de fazer tudo para não ter esse poder diminuído. Hoje temos mais espaço, instrumentos jurídicos, leis que garantem direitos. Mas, direitos como esse das cotas para negros não vêm de graça. É fruto da luta incessante do movimento negro e da pressão social, por isso precisa ser valorizado. Mais que isso, os negros e negras precisam ocupar esse espaço. Creio que as políticas afirmativas já trouxeram o grande benefício de suscitar o debate, deixando aflorar o racismo escondido no jeito brasileiro de excluir. Mas é preciso avançar, ter a coragem de assumir a pele que nos veste e o passado que nos podou, empobreceu, mas não enterrou o sonho de uma sociedade brasileira que supere o percentual de 97% de universitários brancos, 2% negros e 1% amarelo, quando 45% dos brasileiros são negros. Na Ufal, já temos alunos beneficiados pelas cotas para negros, oriundos da escola pública. Enquanto os intelectuais discutem, esses alunos por certo comemoram o fato de lá estarem estudando, pois só quem sente na pele as marcas da exclusão avalia com propriedade se as compensações são justas ou não. Negar que há racismo no Brasil é uma das nossas expressões mais racistas. (*) É cientista social.