Opinião
O dia do ca�ador
| Ronald Mendonça * As más influências e uma forte inclinação natural às aventuras quase acabaram com a vida de Pinóquio. Nascido boneco de madeira por obra de um solitário carpinteiro de nome Gepeto, a célebre personagem ganharia vida pela providencial interferência de uma fada bondosa. Inexperiente, já no primeiro dia de aula o simpático boneco se tornaria presa fácil de duas figuras cuja esperteza é por demais conhecida no mundo da fantasia: a raposa e o gato. Encurralado pela vida, Pinóquio passaria a mentir mais que político atrás de voto em horário eleitoral. A diferença é que quanto mais mentia mais o nasal aumentava. Para completar a desdita, veria o grotesco apêndice transformar-se em abrigo de pássaros, sede de ninhos. O boneco passou por muitas aventuras sempre se dando mal. A oportunidade de redenção para os seus pecados foi meter-se no ventre de uma baleia inamistosa para tentar resgatar o velho Gepeto, anteriormente devorado pela gigante criatura. As aventuras do boneco Pinóquio fazem parte do acervo de historinhas infantis que o avô embasbacado conta para distrair os netos Caio e Maria Clara. Profundo conhecedor de dinossauros, companheiro de idas ao comércio aos sábados, Caio ? às vésperas de completar 5 anos ? tem um arsenal de perguntas enquanto relato essas histórias que são um desafio à criatividade do velho avô. Já Maria Clara adora o enredo de Chapeuzinho Vermelho. Para tornar a história mais dramática, mudo de entonação segundo a fala das personagens. Sem falsa modéstia, hoje sou um especialista na voz do lobo. Fora o Zé do Caixão, não conheço ninguém que ria mais sinistro que eu. O clímax da história de Chapeuzinho é quando ela dialoga com o lobo disfarçado de vovozinha. As mãos peludas, as orelhas enormes, olhos e nariz descomunais, vão dando a dolorosa certeza de que aquela coisa espichada na cama não é a frágil vozinha. Finalmente, a pergunta que não quer calar: ?E essa boca tão grande??. Nesse instante, Maria Clara quer mais é que o caçador chegue logo e acabe com a festa do lobo, livre Chapeuzinho das garras do malvado e retire de sua barriga a sua vovó sã e salva. (*) É médico e professor da Ufal.