Opinião
Luta antiga, arma nova
| Marcos Davi Melo * Quando estava cursando o ginásio no Colégio Batista, o diretor era o professor Jetro Ferreira, um homem de princípios rígidos, que incluía aí a cruzada contra o cigarro. Nas lequições semanais, reunia o alunado no auditório e brandia as suas orientações, onde não faltavam os apelos para que os esquecidos saldassem os seus débitos com o colégio. Rotineiramente se repetia um pega-pra-capar entre o diretor e um conhecido professor de matemática, tabagista contumaz que não conseguia se controlar e ? suprema afronta ?, nos intervalos das aulas, acendia um cigarro e dava longas baforadas em plena sala dos professores. Várias vezes o colégio tremeu ante o bate-boca entre os dois mestres. O atenuante era que o professor de matemática era tão competente quanto irreverente e as coisas se acomodavam. No último ano que passei no Batista antes de ir para o Moreira e Silva, lá chegou um pequeno grupo de estudantes expelidos à força do Marista. Eles despertaram a minha curiosidade inclusive porque no recreio eles sumiam. Procurei pra lá e pra cá e finalmente os descobri escondidos nas encostas da barreira, onde sob as árvores e longe do temível professor Jetro eles praticavam a transgressão maior: fumavam em um refúgio denominado Inferninho Católico. Seduzido pelo proibido, iniciei ali a convivência com o cigarro e só o abandonei quando me formei, especializei em oncologia e tive consciência das suas muitas vítimas. Com o exercício da oncologia fui a cada dia tomando contato com mais e mais vítimas do fumo, principalmente acometidas pelo câncer, em suas formas mais cruéis e agressivas. Muitos amigos meus, inclusive colegas médicos, conhecidos desde a infância, me procuraram em seus momentos mais dramáticos, com tumores avançados que lhes causavam sofrimentos indescritíveis para os quais a medicina tinha e ainda tem limites. O professor de matemática do Batista morreu vítima do cigarro. Há uns 25 anos nos envolvemos com o combate ao tabagismo. Temos feito palestras em colégios em Maceió e no interior, temos usados as rádios, os jornais e a televisão sempre que nos abrem espaço. Agora, um novo e promissor momento se abre: o Ambulatório de Combate ao Tabagismo que inauguramos esta semana na Santa Casa de Maceió. É uma experiência nova, quando contaremos com novos recursos como a terapia de grupo, o apoio de outros médicos e os remédios. Estamos iniciando uma nova fase nesta luta antiga e vamos tentar intervir nas pessoas antes que elas adoeçam. (*) É médico e professor da Uncisal.