Opinião
As academias
| Dom Fernando Iório * São as academias escolas onde aprendemos a ser mais. São escolas que nos educam para aquela maiêutica interior capaz de fazer brotar algo de novo no mundo da criatividade. Quase assim se expressava Sócrates. Ensinam-nos as academias a parturir a beleza, aquilo acima do comum. Possuímos, no recôndito do nosso ser aquele andar superior com quatro janelas: a da beleza, a da verdade, a do bem e a da transcendência. Herdamos a estética, a filosofia, a ética e a religião. Delas descortinamos horizontes ainda mais amplos e belos. Quanto mais abertas estiverem e quanto mais olharmos, através delas, mais felizes seremos. Tem a casa suas escadas ligando os andares. As janelas superiores enriquecem o que se vê em baixo. E, de certa maneira, o que se vê em baixo corporifica muito do que se vislumbra de cima. Da janela, da estética, apreciamos a realidade com outros olhos. A estética humaniza-nos, embelezando a vida. É que filósofos e teólogos escolásticos acrescentaram aos clássicos transcendentais do ser ? um bom e verdadeiro ? o da beleza: todo ser é belo. Da beleza participativa de Deus. Se somos educados para a beleza, sabemos perceber tal dimensão em todas as coisas criadas. Há campos em que a beleza se exprime em grau maior. São os campos das Academias de Letras, de Ciências e Artes. Quem menospreza as academias não possui olhos educados para a beleza da literatura, da pintura, da escultura, do cinema, da iconografia, da música... É o gosto pela beleza de que nos fala Rolland Barthes. Ensinam-nos as academias a ser. Aprender a ser inclui o cultivo das expressões da beleza. Na educação infantil deveria haver aquela preocupação para que tudo quanto cercasse a criança fosse o mais belo possível, mesmo em situação de pobreza, proporcionando aos sentidos um mergulho no mundo da estética. Cultivar a estética deve ser o grande empenho do educador. Outro não deve ser o trabalho das academias, tendo em vista que a beleza educa para o amor, enquanto o seu afastamento torna-se o caminho para o desprezo do outro. Onde não se cultiva a beleza, semeia-se o ódio que tem sido a fonte da violência do mundo. Engolfado no sensualismo da adolescência, ao encontrar a beleza, na fonte de toda beleza que é Deus, exclamava Agostinho: ?Ó Beleza Eterna, quão tarde Te encontrei? (Confissões IV, 13). No Tratado ?De Música?, exclamava o doutor da graça: ?Que coisa é o belo? Que coisa nos alicia e nos afaga nas coisas que amamos? Se nelas não houvesse um decoro e uma beleza, de modo algum nos atrairiam?. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.