Opinião
Laborat�rio �tico
| Sérgio Costa * Dizem que de médico e louco todos nós temos um pouco. Mas ainda não consegui uma vacina para me proteger das doenças provocadas pelo mercado. E mesmo tendo vontade, não consigo apedrejar o Estado omisso. Mas já entrei na fase das alucinações. Ontem sonhei que estava numa cidade na qual as mulheres tinham bigode e os homens falavam fino. Fui pesquisar e descobri que a carne de gado e a de frango que eles consumiam continham hormônios prejudiciais à saúde. Acordei assustado e pingando de suor. Testei a voz. Normal. Um alívio! Efêmero, pois no dia seguinte voltei a sonhar testemunhando outros crimes. Vi mãos inescrupulosas aplicando arbitrariamente inseticidas e pesticidas em frutas, legumes e verduras; misturando bromato no nosso pão de cada dia; vendendo água mineral com coliformes fecais; inserindo corantes em excesso nos iogurtes e sorvetes; entregando placebo no lugar do verdadeiro medicamento. E vi pessoas reclamando de distúrbios intestinais, gastrites, úlceras e alergias. Vi mais: vi pessoas morrendo de câncer. Pobres consumidores de boa fé, assassinados pelo lucro antiético da ?Oferta? diante dos olhares vesgos do Estado. Mais uma vez acordei em pânico. Para não ficar maluco de verdade, tranqüilizei-me com a idéia de que a qualquer momento a sociedade vai exigir que o governo central corte as suas e as verbas dos gabinetes dos Estados e municípios, com as quais construiria um ultramoderno laboratório, com sucursal nos Estados, a fim de analisar alimentos e remédios em todo País. Imaginei que a coisa funcionaria da seguinte forma. O chefe do laboratório central iria a televisão e transmitiria o seguinte aviso: olha aqui, pessoal, vamos passar uma esponja no passado. Quem colocou qualquer tipo de porcaria nos alimentos e nos remédios o fez até hoje. A partir de amanhã, aquele que for pego no erro será detido por crime contra a saúde pública. E não terá mais direito à fiança, habeas-corpus ou outro tipo de recurso. Não tem mais essa de Lei Fleury! E concluiria a mensagem com estas tristes, porém, realistas palavras: o Estado, também nesta área, sempre foi leniente com o crime, mas não mais tolerará esse tipo de genocídio. Sozinho, o chefe do laboratório pode ser contaminado pelo sistema. Precisamos ajudá-lo. Como? Exigindo que o Estado fiscalize, e autue, se erros houver. Mais: divulgue sistematicamente uma relação com os nomes dos infratores. Aí sim, os consumidores terão informações para punir de acordo com as leis do mercado. (*) É contador.