Opinião
Jabor quase definitivo
| Marcos Davi Melo * Arnaldo Jabor deu uma entrevista para a Veja desta semana das mais oportunas. Principalmente porque como ex-membro da esquerda faz severas críticas aos companheiros que ainda rezam religiosamente pela cartilha stalinista. Muitas de suas observações são inquestionáveis diante dos fatos. Começando pela visão idílica, quixotesca e utópica do mundo. A entrevista segue por um caminho que fustiga posturas pétreas que no Brasil não querem se render às evidências. E a entrevista é atualíssima quando se escancaram os aumentos de gastos do governo, à medida que o crescimento do PIB é dos mais pífios, impossibilitando para os próximos anos qualquer perspectiva de desenvolvimento minimamente satisfatório para o País. Jabor coloca com precisão a obsessão da esquerda com o estatismo e cita como exemplo de indicação vinculada à ideologia o diretor do Instituto Nacional do Câncer, alertando que os doentes com câncer não são de esquerda ou de direita. Acrescento mais: eles e outros doentes precisam ter o melhor tratamento a um custo mais baixo para a nação e as entidades filantrópicas no Brasil já provaram sua capacidade de atender bem estas exigências. O que Jabor não disse não se sabe por que e poderia ter dito sobre a necessária atualização da esquerda brasileira é entre outras coisas: muitas das estatais são na verdade cabides de empregos para os poderosos de plantão, que ali alocam os seus apaniguados com salários altíssimos, aos quais jamais teriam acesso se dependessem de sua capacidade de trabalho, disputando espaço na iniciativa privada. Estas estatais, com raras exceções como a Petrobrás, principalmente as operadoras de energia elétrica que ainda permanecem sob o controle do Estado, estão entre as de mais baixo padrão na qualidade da energia que fornecem ao consumidor, se comparadas às privatizadas, embora tenham tido os generosos e repetidos reajustes de tarifas concedidos pelo governo ao setor. Jabor, porém, poderia ter sido menos tendencioso: o estatismo hoje no Brasil não é uma bandeira só da esquerda, mas também dos desprovidos de ideologia, e que dele se aproveitam, seja por oportunismo, preguiça ou por incapacidade de enfrentar a competitividade da vida real. Desta forma, sob o manto do estatismo, mantêm-se privilégios de grupos que sugam a viúva e não se rendem às evidências de que suas ações são ineficientes e fator de atraso no desenvolvimento, como está mais do que evidenciado nas operadoras de energia elétrica que ainda permanecem estatizadas. (*) É médico e professor da Uncisal.