Opinião
Companheiros de ema�s
| Dom Fernando Iório * Emaús são nossas estradas, nossos itinerários, nossos caminhos. Basta dizer que nunca estivemos sozinhos em nossa existência, no ontem da caminhada, bem assim no futuro que se avizinha. Mesmo se o construir-se a si mesmo fosse o momento pessoal em que agimos em primeira pessoa, jamais fazemos sozinhos nossa construção verdadeira, sem contar com os outros com quem vivemos. Com isso não delegamos nossa responsabilidade a quem quer que seja, mas sentimos estar ligados a companheiros com suas responsabilidades, caminhando a nosso lado. De fato, não somos atores únicos de nossa história, porque somos membros de uma sociedade real, grupal. Nós é que escolhemos os companheiros de viagem, líderes ou não, porque alguns conseguem ser nossos guias e são coerentes com o fim escolhido. Numa sociedade que delega o poder e concentra as grandes decisões, nunca devemos renunciar à nossa responsabilidade. O caminho da autêntica formação para viver juntos passa por uma dupla descoberta: a do valor próprio e a do valor dos outros. São valores diferentes, mas não de uma diferença que destrua a igualdade, mas que a torne plural. O intercâmbio das diferenças acontece na base da igualdade primeira. Todos recebem de todos. Cada um de cada um. Cada qual oferece do que tem ao outro. Nesse jogo igual, as diferenças são enriquecimentos e não concorrência, conflitos ou exclusões. A tarefa pessoal importante, no projeto da construção de si mesmo, será, portanto, escolher os companheiros, verificar e decidir a que grupo pertencer. Salvo qualquer engano, podemos concluir estarmos disponíveis para todos: a encontrá-los, a ajudá-los e a nos deixarmos ajudar. Em sentido cristão, todos são irmãos com os quais podemos partilhar a nossa humanidade, no maior respeito à liberdade. Torna-se óbvio que, por um lado, não podemos caminhar juntos com aqueles que se encontram em caminhos diferentes dos nossos, mas, por outro lado, devemos procurar aqueles que perseguem os nossos fins, aqueles que, definitivamente, são ?companheiros de viagem?. É claro que o ponto de partida com o qual podemos confrontar é constituído pelos companheiros naturais de viagem que encontramos já presentes na família... Ninguém é feliz na estrada de Emaús, se não confia nos companheiros de caminhada. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.