Opinião
O direito de escolher
| José Medeiros * Não é raro encontrar na Internet gente que recomenda anular o voto nestas eleições. As justificativas são as mais variadas: insatisfação com o quadro político, desagrado com posições assumidas por representantes em quem votou. Com a anulação do voto, assumem manifestação de protesto, contestação e indignação. Isso sempre aconteceu em outras eleições, porém jamais nas proporções agora assumidas. Pelas pesquisas divulgadas são 18% do eleitorado que se inclina para essa posição, correspondendo a cerca de 20 milhões de eleitores. Supostamente, esta decisão representa mais votos que os do terceiro candidato na corrida presidencial. Bem que não faltam razões aos que defendem essa tese; estão revoltados com as posições anti-éticas dos candidatos em que votaram e com a falta de cumprimento das promessas de campanha. Muitos lembram frases antigas, já esquecidas: ?voto dado, rolete chupado?, ?palavra de político não envolve questões de honra?; dessa forma, nivelam injustamente no mesmo plano os bons e os maus políticos. Nas eleições proporcionais, através do radio e da tevê, o tempo é curto, muitos candidatos se valem de frases de efeito e promessas fantasiosas, tornando difícil saber o que pensam sobre problemas vitais do Estado. Entretanto, há outros candidatos que podem ter muito a dizer, mas não dispõem de tempo suficiente. Nas discussões sobre voto nulo, tenho posição formada: jamais votaria em branco ou anularia meu voto, por considerá-lo compromisso com os interesses da comunidade, dever cívico do qual não se pode abrir mão. Foi uma longa história, de muitos lances, para que fosse conquistado o poder de eleger diretamente nossos representantes e dirigentes. As mulheres somente conquistaram o direito de votar, em 1932. Na campanha das ?Diretas já?, em 1984, milhões de pessoas foram às ruas para exigir o direito de votar para presidente da República. Somente após o governo militar, o Congresso Nacional restabeleceu eleições diretas para presidente, governador e prefeito. Faz pouco mais de 20 anos em que esses direitos foram assegurados. Não estamos utilizando, na escala devida, a prerrogativa de cobrar de nossos representantes o cumprimento de suas promessas eleitorais. Se cobrarmos, o voto deixa de ser uma procuração em branco para que o político faça o que quiser; ao contrário, torna-se um exercício participativo em que o eleitor fiscaliza aqueles em quem votou. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.