Opinião
Todos os lagos do mundo em um s� lago
| Jorge Briseno * A área total de todos os lagos de água doce do planeta alcança, segundo o professor Shiklomanov, um total de 1,2 milhão de quilômetros quadrados. Imaginar um só lago contendo essa mesma área é algo formidável. Pois bem, ele existe e, mais incrível ainda, está situado debaixo dos nossos pés. Infelizmente não debaixo dos pés de nós, sedentos nordestinos, porém, bem abaixo dos sapatos e chinelos dos brasileiros que residem nos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Se o amigo leitor já está impressionado com a dimensão da área de abrangência, em nosso país, desse fabuloso manancial, então se prepare para saber que ele também ultrapassa fronteiras, alcançando o oeste do Paraguai, o norte e o centro-oeste do Uruguai e o nordeste das terras dos nossos hermanos argentinos. Trata-se do Aqüífero Guarani. A designação do nome Guarani foi sugerida pelo geólogo Danilo Antón, em homenagem aos índios da nação guarani que habitavam a região na época das Reduções Jesuíticas. É a maior reserva subterrânea de água doce da América do Sul e considerada uma das maiores do mundo. A água do manancial está situada a profundidades entre 50 e 1.500 metros, ocupando uma área total de 1,2 milhão de quilômetros quadrados. Para termos noção da extensão dessa área, ela é maior do que a soma da superfície total da Espanha, França e Inglaterra, ou então, tomando por base outra comparação, igual a toda a área do Pará. Para se ter uma idéia da potencialidade do Guarani, os poços profundos perfurados em sua formação atingem profundidades entre 1.000 e 1.700 metros e chegam a produzir, na região de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, vazões que superam 700m3/h por poço, com alguns atingindo 1.200m3/h. O professor Aldo Rebouças estima um potencial de exploração do Aqüífero Guarani, somente na porção brasileira, em 40 trilhões de litros por ano. Tal volume teria condições de abastecer anualmente, até o fim dos tempos, uma população de quase 14 milhões de almas. Isso considerando apenas a utilização de 25% das recargas provenientes das águas das chuvas, sem utilizar uma gota sequer da reserva permanente (48 quatrilhões de litros) que permaneceria estocada e intocada. Controlar, fiscalizar, preservar e explorar racionalmente essa dádiva da natureza é uma obrigação moral que os brasileiros, argentinos e uruguaios de hoje possuem com as gerações que ainda estão por vir. (*) É engenheiro e presidente da Casal.