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Mamulengos e cartogramas: os bastidores e a cena

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| Fátima Albuquerque * A cena não poderia ser mais bonita: de um lado, bonecos vivos, movimentando-se e falando e, do outro, crianças sorrindo, gritando e aplaudindo. Nos bastidores: trabalhadores da arte, caçadores da utopia, pessoas que vivem a e na fronteira da sociedade. Na platéia: projetos de gente, crentes da utopia, faíscas de liberdade e sonhos. Numa semana estavam numa escola da periferia, na outra numa comunidade carente, na outra numa escola privada de classe média. ?Os olhos serão sempre os mesmos... inocentes, inquietos e esperançosos... isso, a classe social não muda!? diria uma atriz. A representação dramática do mamulengo no Brasil nasceu lá para as bandas de Pernambuco, no Século XVI. Em um pequeno palco elevado, escondidos atrás de uma empanada, pessoas davam vida e voz a bonecos (gente e bichos) e representavam, quase sempre, narrativas de interesse social. O retrato dessa cena provavelmente não mudaria muito e apresentaria sempre, desde o início e até agora Século XXI, uma estreita harmonia entre platéia e bastidores, porque o vínculo entre essas duas dimensões foi, é e sempre será, a experiência da utopia. A cena do cartograma é diferente. Cartogramas são gráficos utilizados para mostrar dados populacionais e, mais ainda, como as mudanças nos mapas aconteceriam a partir da representação visual das mudanças globais de distribuição de riqueza e miséria, ou seja, de acordo com os bastidores da narrativa, uma nova cena se articularia e se moldaria no mapa mundi. Que surpresa tive em ver a modificação do mapa original para o novo mapa que se configurou quando o bastidor era ?distribuição populacional?... lá, a China e a Índia se destacavam significativamente, enquanto a antiga Rússia e Canadá quase desapareciam! E, quando o bastidor era ?produto interno bruto?, a América do Norte, Europa e Japão eram as grandes áreas do mapa abocanhando o mundo, enquanto a África, quase ficou invisível! De novo esse efeito apareceu em ?total de gastos com cuidados com saúde? e ?consumo de energia, incluindo óleo?. No entanto, quando o bastidor foi ?mortalidade infantil?, o planeta terra era quase todo África e Índia! Em ?pessoas vivendo com HIV/AIDS?, o planeta mais uma vez era quase todo África e áreas vizinhas! Neste tipo de cartograma, a utopia não existe: bastidores e platéia se entrelaçam e se deformam para dar visão à estética da ganância e falta de solidariedade humana. Na perspectiva do Worldmapper Project, Rhodin era apenas um mero iniciante! (*) É professora da Ufal.

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