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O problema do estrangeirismo

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| Thaís Nicoleti * Muito se tem discutido a invasão de anglicismos que sofre a nossa língua hoje. Aos que se preocupam com uma possível descaracterização do português, é bom lembrar que a língua incorpora traços da história e que essa pretensa pureza do idioma talvez não exista. Ocorre que a influência de uma língua sobre outra é reflexo do domínio de uma nação sobre outra, o que desloca o debate para o plano político. Não somos vítimas de invasões territoriais, mas sofremos um sutil processo de dominação. É a expansão do modelo cultural norte-americano, em compasso com os tentáculos da economia de seu país. Ao adotarmos esse modelo, vitorioso do ponto de vista do capital, experimentamos a sensação de pertencimento a uma cultura de prestígio. É a cultura como um todo que está em jogo, não apenas a língua. Já houve momentos em que estudiosos da língua se preocuparam com os estrangeirismos e imaginaram poder lutar contra eles apenas no plano lingüístico. O filólogo Castro Lopes, por exemplo, incomodado com o anglicismo ?football?, que dava nome àquele que se tornaria o nosso esporte nacional, criou, para substituí-lo, o termo ?balípodo?, que existe, sim, mas só nos dicionários. Na boca do povo, o que ficou foi o futebol, devidamente aportuguesado, de acordo com as normas ortográficas e prosódicas do português. Outras muitas palavras de nosso dia-a-dia vieram de fora, incorporaram-se ao idioma e hoje não são mais percebidas como estrangeirismos: lanche (lunch), filé (filet), abajur (abat-jour), pivô (pivot), creme (cráme), vinagrete (vinaigrette) e xampu (shampoo) são algumas delas. Todas sofreram o processo de aportuguesamento, vital para a garantia da soberania da nossa língua. Aportuguesar não é apenas adotar a palavra estrangeira. É antes submetê-la à nossa pronúncia e à nossa grafia e, assim, conceder-lhe um visto de permanência em nosso território lingüístico. Já a substituição de nossas palavras pelas de outras línguas (?off? ou ?sale? no lugar de ?liquidação?, por exemplo) revela, além de submissão ao estrangeiro, preconceito contra aqueles que não tiveram acesso nem mesmo aos rudimentos do inglês. Em Portugal, não se diz ?mouse?, mas ?rato?. O exemplo ilustra o modo como aquele país lida com sua tradição e seus valores. É lamentável que o Brasil, um país continental, de tantas riquezas culturais ? unidas pela língua, que, apesar de suas diferenças regionais, é única ? subestime as próprias raízes em favor de uma identidade postiça. (*) É consultora de língua portuguesa ([email protected]).

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