Opinião
Vontade e veleidade
| Dom Fernando Iório * A vida sempre está mergulhada em vários porquês. E não são poucos os porquês da vida. Há porquês de desejar amanhã, sem querer agora; outros tantos, de querer agora, sem poder querer. A primeira verificação a fazer no que decidimos é se as escolhas feitas, em nossa vida, são da ordem da veleidade e dos puros propósitos ou na da vontade real ou decisiva. Pode acontecer de encontrarmos um amigo, ausente por um longo espaço de anos e lhe dizermos: ? que bom se nós nos pudéssemos encontrar outra vez para relembrar a vida passada. Achamo-nos aí no caminho da veleidade, porque poderá passar um longo espaço de tempo para outro encontro. Ao contrário, se lhe tivéssemos dito: ? vamo-nos encontrar no próximo domingo, no restaurante X para um almoço onde conversaremos à vontade, estaríamos no universo da vontade efetiva de ver o amigo: lugar marcado, data fixada, horário do almoço. Pelo visto, se da veleidade quisermos chegar à decisão real, necessário se fazer algo diferente dos sentimentos e das simples palavras. Teremos de tomar providências. Temos de procurar uma agência de turismo e marcar viagem para determinado País, fixando os dias de viagem, a partida, o regresso, o gasto. Trata-se de uma decisão tomada. Então, atingimos o campo da vontade. Urge verificar se nossas escolhas resultam em fatos concretos ou se pertencem ao gênero dos desejos, dos propósitos, das ?boas intenções?, das quais, dizem os entendidos em maldade, o inferno está cheio. Um mar imenso existe entre o dizer e o fazer, entre desejar e decidir fazer. Tudo porque não temos idéias claras sobre como passar da teoria à prática, do desejo à decisão efetiva. Quando se desenha o projeto de uma casa e se faz a maquete, estamos a meio caminho da sua realização. Pode-se esperar habitá-la um dia, mas só se depois arranjar um processo que das palavras passe para o agir concreto, conforme leis determinadas. Construir-se-á a casa se já existe o terreno, o dinheiro e se já foi escolhida a empresa construtora. Entender essa diferença e agir em conseqüência significa passar da mentalidade do projetista para a de construtor. Da veleidade de desejar projetar surge a vontade determinada de construir. Quem se orienta para um ideal abstrato vive na ?utopia?, verbete que, em grego, significa ?o não lugar?, quer dizer: quem sai do viver ordinário desemboca no ?êxtase?, no sublime da meta. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.