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| Dom Fernando Iório * Por que algumas pessoas se deslumbram diante de uma noite estrelada, outras, no entanto, permanecem indiferentes? Por que tantos se emocionam ao ouvir determinada música, enquanto outros ficam insensíveis? Por que alguns se agitam, pedindo comédia, e outros muitos se revoltam exigindo tragédias? Por que aqueles jovens deliram por tal cantor popular e rejeitam uma composição de Beethoven? Por que existem fiéis que deliram diante de notícias apocalípticas das aparições de Nossa Senhora, enquanto outros nem querem ouvi-las? Que força magnética fazia tremer Domingo de Gusmão ao contemplar Jesus de Nazaré e que comoção espiritual tomava conta do pobrezinho de Assis ao meditar no amor misericordioso do Filho de Maria? Por que tantos seduzidos por determinadas perspectivas, enquanto os demais procuram caminhos diferentes? De que se trata? De misteriosas concordâncias ou discordâncias interiores, na profundidade do ser? Ou se trata de correntes subterrâneas que unem e sintonizam determinados pólos que vibram em um mesmo tom? Eu me fascinei por Jesus Cristo, mas outros foram atraídos por Maomé ou Buda. Por que me volto para certa pessoa em quem esperava encontrar discernimento e verdadeira postura de gente confiável e, de logo, após certas atitudes e posições ambíguas, me sinto repugnado como se fora um vizinho qualquer? Sofro com isso, em ter confiado e, após tudo, ter de, profundamente, desconfiar, com a força do meu temperamento forte, forte como o aço, mas temperado com o amor de Cristo. Mesmo assim, caminhei na minha estrada, desfolhando flores, cerceando cabeças, destroçando moinhos de vento, despedaçando bonecos de pano, não sendo títere de ninguém. Por isso mesmo, ninguém poderá imaginar quantas vezes tive de cerrar os dentes e morder a língua para poder imitar a doçura do meu Cristo. Faz poucos dias, desafiaram meus dentes cerrados e minha língua mordida e, num instante de silêncio, implorei ao meu Deus que fizesse chover mansidão sobre o chão de minha terra insultada e bloqueada e me restituísse ao semblante sofrido aquele sorriso primaveril. Ainda hoje, após tantos anos de ascese, não disponho de um modo de bem aceitar a mentira de quem conta e a fraqueza de quem ouve. Tudo por quê? Porque pessoa alguma muda, de todo. Nossos códigos genéticos nos acompanham do berço à sepultura. Todavia, podemos melhorar, à procura da santidade. Melhorar, numa palavra, significa que, de tanto realizar atos de paciência, o impaciente poderá ir adquirindo maior facilidade para agir de maneira oposta; cada vez mais vai precisar de fazer menos esforço para vencer-se, tornando-se mais moderado. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.

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