Opinião
Embaixada do Sossego
| Ivo Werneck * Esta história, verdadeira, se passou comigo e meu irmão, no início da década de 60, no Rio de Janeiro. Éramos dois meninos na faixa de 10/11 anos quando resolvemos escrever para todas as embaixadas de países que mantinham relações diplomáticas com o Brasil, à época ainda localizadas no Rio, antiga capital federal. Em uma pequena tira horizontal de folha de caderno espiral, na ânsia de conhecermos o mundo ainda desconhecido e fantasioso para a maioria das pessoas, quiçá para dois adolescentes, escrevíamos algo assim: ?Senhor Embaixador: solicitamos enviar-nos folhetos e prospectos ilustrativos deste maravilhoso País que é...? (aí colocávamos o nome do País). Encontrávamos os nomes e endereços das embaixadas na lista telefônica de assinantes. Dentre os nomes, encontramos certa vez Embaixada do Sossego. Pela ordem alfabética, após a Embaixada da Romênia e antes da Embaixada da Suécia, creio eu. Curiosos, esforçamo-nos para lembrar desse País que nunca ouvimos falar. Seria na África ainda colonial ou em algum principado incrustado no centro da Europa? Procuramos intensamente no mapa-múndi e nada! Resolvemos, mesmo assim, escrever para a Embaixada do Sossego. E lá se foi nosso bilhete! Lembro-me que, na ocasião, estranhamos muito o endereço, pois a Embaixada do Sossego localizava-se no velho bairro da Lapa, antiga zona da boemia então em decadência, enquanto as demais representações diplomáticas sediavam-se em endereços nobres na zona sul da cidade. Algum tempo depois, descobrimos que Embaixada do Sossego nada mais era que o nome de uma antiga e depauperada agremiação carnavalesca famosa em décadas passadas, que resistia à modernidade. Imagina caro leitor a cena: Um velho sobrado na Lapa... Embaixo o tradicional botequim carioca. Ao redor de uma mesa na calçada, a diretoria da ?embaixada? conversa, bebendo muita cerveja. Passa o carteiro, e entrega nossa carta... Um deles, o que a recebeu, com a camisa aberta sobre o barrigão, portando enorme cordão de ouro e ostensivos anéis nos dedos a abre, e, com ar de espanto, começa a ler, titubeando, para os outros: ? ?Senhor Embaixador: solicitamos enviar-nos folhetos ilustrativos, prospectos e mapas deste maravilhoso e conceituado País que é o Sossego...? (*) É engenheiro eletricista e perito criminal IC/AL.