Opinião
Lombadas e lucros
| Jorge Briseno * Na semana passada, um fato que passou quase despercebido chamou minha atenção. A prefeitura, através da SMTT, desativou as lombadas eletrônicas que operavam na rodovia MAC-204, situadas nas proximidades do Sítio São Jorge. A alegação do órgão municipal para a desativação das lombadas foi de que estava tendo prejuízo financeiro e que as multas aplicadas e arrecadadas naquele local não cobriam os custos de manutenção dos equipamentos e não davam lucro. Isso mesmo, não davam lucro. A medida foi recebida com revolta pelos moradores da região, para quem os índices de atropelamento irão aumentar na rodovia. Tal fato nos leva à reflexão de um tema polêmico. Até que limite a busca por lucros cada vez maiores pode ser realizada sem permitir que a vida humana possa ser relegada a um plano inferior? Até que ponto podemos aceitar que valores como a vida, a dignidade humana e a solidariedade possam ser sacrificados ou tornados irrelevantes por objetivos apenas orientados para o mercado, para a busca do lucro? Será que tudo se resume a valores comerciais, como fez a Grécia que, por não ter atingido as metas fiscais exigidas pela Comunidade Econômica Européia, resolveu incluir as receitas obtidas com a prostituição e o contrabando fazendo com que o déficit fiscal tivesse uma redução de 4,5% para 2,6%? O paroxismo da busca do lucro a qualquer custo chegou ao absurdo de gerar corporações militares particulares que fazem da guerra um excelente negócio ao colocar exércitos privados à disposição de países como os EUA quando da invasão no Iraque. Como vemos, nos EUA vale tudo quando o que está em jogo é o lucro. Fico a imaginar o que aconteceria se a Casal utilizasse o critério da lucratividade para se livrar dos sistemas de abastecimento de água sem atratividade econômica, como os que operam no semi-árido alagoano. Certamente que criaríamos uma condição absolutamente insustentável à vida nas comunidades e povoados pobres, constituídos por habitantes sem nenhuma capacidade de pagamento e que estão localizados em pontos distantes dos nossos centros de produção. Transportar água a longas distâncias para essas populações pobres nunca irá gerar lucro, tal qual as lombadas da SMTT no Sítio São Jorge. O único lucro que obtemos ao realizar essa tarefa é a satisfação de realizar um trabalho, muitas vezes não reconhecido, fundamental para essas comunidades. O único lucro é o de saber que nas nossas adutoras, não transportamos apenas água e, sim, vida e dignidade. E isso não tem preço. (*) É engenheiro e presidente da Casal.