Opinião
Final (quase) feliz
| Elaine Pimentel * O fim do drama que envolveu cinco membros da Apac ? Associação de Proteção e Assistência Carcerária ? tomados como reféns no Módulo 5, da Penitenciária Masculina Baldomero Cavalcanti de Oliveira, foi comemorado por todos os familiares e amigos que acompanharam hora a hora a angústia das negociações. Rebelados desde a tarde do sábado que antecedeu às eleições, os presos faziam reivindicações pertinentes, que revelam quão frágil é o sistema penitenciário alagoano. Graças à intervenção do Padre Günther, presidente da Pastoral Carcerária Nacional, que veio a Maceió exclusivamente para participar das negociações com os presos, o fatídico episódio não se transformou numa tragédia de maiores proporções. Os reféns foram liberados com vida, embora debilitados e exaustos. A Apac é um grupo cristão que atua em Alagoas há trinta anos em prol dos direitos daqueles que perderam a liberdade em virtude de cometimento de crimes, na perspectiva de contribuir para a ressocialização, através dos ensinamentos do Evangelho. Na qualidade de Pastoral, trabalha voluntariamente, de forma discreta, conquistando o respeito e a confiança de muitos dos que estão direta ou indiretamente ligados à questão carcerária: presos e seus familiares, agentes penitenciários, administradores do sistema prisional, dentre outros. Depois de participar de diversas rebeliões e motins na qualidade de mediadora das negociações, a Apac é surpreendida com uma situação inusitada, que gerou muitos questionamentos acerca dos motivos que levariam os presos a tomar como reféns pessoas que aos sábados abrem mão do convívio de seus familiares e tentam levar aos reeducandos algumas palavras de conforto e incentivo. Em outras palavras, por que ameaçar justamente quem faz o bem? Alguns afirmam que é pura perversidade de homens que não têm nada a perder. No entanto, acredito que a medida extrema tomada por parte dos presos tenha outros significados. Embora a atitude de fazer reféns homens inocentes seja reprovável e absurda, ela revela o nível de desespero daqueles que não são ouvidos em hipótese alguma. A rebelião acaba sendo, lamentavelmente, o único meio que aquelas pessoas têm para sair da invisibilidade social gerada pelo cárcere e dizer à sociedade e às autoridades competentes: nós existimos. Nos bancos das faculdades de Direito é proclamado aos quatro cantos que os indivíduos, ao serem presos, perdem apenas a liberdade e não a sua dignidade. (*) É mestre em Sociologia, membro do Conselho Penitenciário de Estado de Alagoas e membro da Associação de Proteção e Assistência Carcerária - Apac.