Opinião
Metamorfose � brasileira
| Sérgio Costa * Não sei se conseguirei digerir a notícia segundo a qual trabalhamos quatro meses por ano para pagar impostos. A razão do inconformismo é notória: não recebemos um só serviço público de boa qualidade. Problemas de uma vida subtraída e sem perspectiva. O País não cresce, os ventos do atual modelo democrático não nos estimula a lutar pelos nossos direitos e o sol não consegue clarear a alma dos insensatos. Ontem fui dormir levando essas dilacerantes indignações para o travesseiro. Talvez por isso a noite tenha sido longa e repleta de pesadelos. Num deles, as imagens pareciam verdadeiras. Eu me via saltando da cama às cinco da matina para iniciar mais um dia de trabalho. Via-me pensativo, com as mãos nas grades de proteção da janela do quarto, tentando arrancar da mente as causas que contribuem para tamanha voracidade fiscal. Concluía o óbvio: como a insensatez não consegue realizar investimentos capazes de fazer com que os recursos retornem para os cofres públicos, como não tem interesse de cortar privilégios, prefere aumentar os impostos dos idiotas. Nesse momento, uma áurea contínua e fria, quase gelada, bateu de frente no meu rosto. Senti uma espécie de pequeno furacão penetrar rapidamente no meu corpo. O ar deslizava pelas narinas, ouvidos e boca, já entreaberta como que em estado de choque. Em seguida, era tomado por uma profunda dor interna, algo que jamais havia experimentado. Enquanto os dedos das mãos e dos pés tomavam a forma de cascos, o queixo e as orelhas cresciam dolorosamente. A pele encrespava e mudava de cor. E os cabelos dos braços, para onde olhei assustado, engrossavam vertiginosamente. Meu Deus, o que estará acontecendo comigo?! Gritava, pedia socorro, mas ninguém me ouvia. As mãos se soltaram das grades e caíram no assoalho. Fiquei literalmente de quatro. Quando olhei para o espelho vi que havia me transformado num burro de carga. Pensei em fugir, mas o amor pela família reprimia essa idéia. Resignado, comecei a pensar na nova vida. Como burro, também não desfrutaria de direitos sociais, mas teria liberdade para defecar, urinar e transar no meio da rua sem ser reprimido. Melhor: sob os olhares invejosos dos transeuntes. Já estava me acostumando com essa idéia quando minha mulher me acordou. Voltei à condição de idiota para ouvir o que já sabia: mensaleiros e sanguessugas não seriam presos nem devolveriam nossos impostos. Freud, o verdadeiro, tinha razão: ?Os sonhos são prenúncios da realidade?. (*) É contador.