Opinião
Seis Brasis de favelados
| Jorge Briseno * No mundo, quase 1 bilhão de pessoas vivem em favelas. Algo como seis vezes a população do Brasil residindo em condições desumanas. Os maiores contingentes dessas populações encontram-se na Ásia e África, de acordo com a ONU. Os números são estarrecedores. Na África Sub-Saariana, 71% da população urbana mora em favelas. Em alguns países da Ásia Central, o número de pessoas nessas condições atinge 59% da população. O continente asiático possui 550 milhões de favelados, mais da metade dos existentes no mundo. Na América Latina e no Caribe, 32% são favelados e, incrível, 6% dos habitantes dos países ricos, integrantes do seleto grupo do Primeiro Mundo, ainda habitam em condições semelhantes às dos nossos favelados. Se o número total de favelados mundiais aumentou em torno de 36% durante os anos 90, a estimativa da ONU é de que atingiremos 2 bilhões de favelados nos próximos 30 anos se nenhuma ação for tomada. Previsões assinalam que no ano 2050 mais de 75% da população mundial viverá em megalópoles. Cidades como São Paulo, Bogotá, Cidade do México, Bombaim, Calcutá e Lagos estarão convertidas em monstros que engolirão dezenas de outras cidades vizinhas como também milhões de pessoas. Já é comum encontrar nessas cidades moradores que habitam em suas favelas há mais de 40 anos. Em Nairóbi, no Quênia, 60% da população reside em favelas que ocupam apenas 5% da sua área urbana. A urbanização é, sem sombra de dúvidas, a mais poderosa tendência do mundo e, infelizmente, a humanidade não está sabendo lidar com esse fenômeno. O desafio que se apresenta para os planejadores urbanos é enorme. Para enfrentar o problema, o relatório da ONU aponta para políticas públicas nas áreas de educação e saúde, ações de planejamento e controle na ocupação do solo urbano e fortes investimentos em infra-estrutura como obras de abastecimento de água, implantação de redes coletoras e estações de tratamento de esgoto e redes de drenagem. Estamos pagando o preço do descaso com o crescimento descontrolado das nossas cidades que vem se somar a uma perversa desigualdade na distribuição de riquezas para criar espantosos guetos de miséria. Estamos pagando o preço de termos perdido a concepção de que a felicidade é uma idéia de equilíbrio e que a autêntica cidade, a verdadeira pólis, justa e sustentável, é a que tem o ser humano como centro de tudo. (*) É engenheiro e presidente da Casal.