Opinião
Por que o sofrimento
| Dom Fernando Iório * Não deixa o sofrimento de ser pão de cada dia. Sofre o homem moderno e sofre muito, apesar do tremendo avanço do progresso científico. Basta um ligeiro olhar ao nosso derredor. Basta a leitura dos jornais, bastam os noticiários da TV, basta visitar os grandes e pequenos hospitais, para que possamos sentir o drama do sofrimento. Sofre o idoso abandonado e solitário. Sofre a criança que mal acaba de nascer. Sofre o adolescente no caminho esperançoso da vida. Sofrem os pais que perderam o primeiro filho. Sofre o operário com o fardo do trabalho, sem o suficiente para alimento da família. Sofre o camponês vendo sua colheita destruída. Sofrem as famílias vítimas das tempestades e enchentes. Quantas pessoas deficientes! Quantas faces enrugadas pela tristeza! Quantos corações despedaçados pelas intrigas e calúnias! Quantas vidas quebradas pelas pedras da violência! Quantos vilipendiados pelos sistemas políticos e econômicos! Quantos gritos abafados de oprimidos e humilhados! Continua o mundo sendo aquele mar de dores. São milhões de famintos, de miseráveis que vegetam no subdesenvolvimento. Pessoa alguma foge da via-sacra do sofrimento. Para que o sofrimento dessa mãe jovem cancerosa condenada, tão cedo, a exalar o suspiro derradeiro? Para quê? Para que, há mais de 30 anos, suporta aquela senhora uma paralisia que a jogou numa cadeira de rodas? Para que tanto sofrimento que a tantos faz revoltar, blasfemar e até enlouquecer? Não é fácil a resposta. O sofrimento foi escândalo na própria vida de Jesus, a ponto de Ele suplicar ao Pai afastasse o cálice da dor. Cientes de nossa dor, não devemos maltratar o sofrimento, desprezando-o, tornando inútil. O importante é aceitá-lo, quer dizer - colocá-lo em nossa vida, assimilá-lo e, enfim, sublimá-lo. Ninguém mais do que Deus deseja curar-nos, até mais do que nós mesmos nos desejamos curar. A missão libertadora de Cristo mais se manifesta a partir do olhar para o Crucificado. A partir do Calvário, aceitamos o desafio, as crises, os dramas, os sofrimentos, as cruzes que nascem do nosso envolvimento com as dores dos injustiçados, violentados e oprimidos, com os exilados e marginalizados, no caminho do sofrer. Com a luz de Cristo Crucificado e Ressuscitado podemos e devemos assumir a responsabilidade de enxugar as lágrimas, de aliviar o sofrimento, de acalmar as angústias, porque, pela sua Páscoa, todos os males foram, fundamentalmente, vencidos e sublimados. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.