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Opinião

O lugar onde todas as crian�as se encontram

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| Fátima Albuquerque * É manhã, e como em todo lugar do mundo, as crianças se preparam para um novo dia. Há um elemento diferente: não estou em Maceió, mas em Oslo. Estou sentada num banco de uma estação de trem esperando minha condução. Vejo uma mulher chegando na outra plataforma, acompanhada de 5 crianças, talvez com idade entre 2 e 4 anos. Encapuzadas, as crianças estão literalmente entaladas nas roupas de frio e por isso mal podem se mexer, permanecendo sentadas no banco como se fossem obedientes, como se sua energia e alegria do crescimento pudessem ser contidas... Por isso, em resposta a sua meninice, tudo observam, e balbuciam palavras que ninguém parece entender. No entanto, é sua linguagem corporal, universal enquanto alegria, que captura minha atenção. Nesse momento, lembro das crianças da comunidade Sururu de Capote, os anjos da lama, como as chamei ano passado. Todas são crianças, mas parecem viver em mundos totalmente diferentes. Lembro de sua especial alegria, apesar de sua luta cotidiana pela sobrevivência diante da desnutrição, parasitoses, anemia e outros tipos de violência. Lembro de sua especial energia, ao empinar pipas que serpenteavam em meio aos fios das ligações elétricas inseguras. A distância entre esses dois mundos não é só geográfica ou econômica. É uma distância ética, que se destaca pelo nível de violação de direitos humanos que sofrem as crianças brasileiras, nascidas em lares que se localizam abaixo da linha da pobreza. Entendo que pobreza é um conceito que vai além da privação de recursos e me identifico com o conceito de Amartya Sen, que a define como ?privação de capacidades básicas de um indivíduo?. Esta ?capacidade? é entendida como um tipo de liberdade substantiva que permite o indivíduo ter auto-determinação, isto é, plena liberdade de escolha. É a distância entre estes dois mundos que abocanha suas vidas e lhes diminui as capacidades. Mas, crianças que são, destituídas ainda de toda maldade e compreensão das desigualdades, encontram uma saída nesse labirinto que se tornou suas vidas e se encontram com outras crianças, no espaço da curiosidade, da esperança. Por isso empinam pipas olhando para o céu. Por isso balbuciam palavras incompreensíveis. (*) É professora da Ufal.

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