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O rei e o pal�cio

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| Sérgio Costa * Era uma vez, um rei justo e muito corajoso. E o destino quis que ele comandasse uma nação marcada pela impunidade e pelo ferrão da injustiça. Conhecendo a origem do sofrimento do povo, sua primeira providência foi construir um grande palácio. Convidou a população injustiçada para erguê-lo. Dia após dia, o Rei estava lá no canteiro de obras, ajudando nos trabalhos e acompanhando o cronograma de execução do seu extraordinário projeto. Sábio, pedia que os trabalhadores conversassem com os materiais de construção a fim de que estes protegessem o Palácio contra as enfermidades da alma. Assim fortalecido, ele poderia cumprir sua singular missão, dizia o monarca. Quem chegasse ao local da obra ficava pasmo. O barulho da construção confundia-se com as súplicas dos trabalhadores, que clamavam por dias menos oprimidos: cimento, vedes todas as fissuras para que aqui não entrem a impunidade e a corrupção. Telha e tijolo, não permitam que os ventos da arrogância penetrem nesta casa. Pedra, não deixes que sobre ti floresça o fel do suborno. Quando o Palácio ficou pronto, o Rei foi até ao salão central e fez uma promessa: a fim de que possas trabalhar com independência, usarei os impostos dos teus construtores para proteger-te com mil soldados. E finalizou: distribuas justiça e tudo o mais se resolverá. Ergueu-se assim o Estado de Direito. Infelizmente, o Rei faleceu antes da inauguração. Conta-se, porém, que os juízes que lá chegavam ouviam sua voz e respeitavam suas orientações. E as paixões opressoras passaram a temer a espada invisível da justiça. Ocorre que o Palácio, não se sabe ao certo por que, sofreu uma repentina e profunda transformação. Alguns acham que foram os males que fugiram da caixa de Pandora, ocuparam-no e devoraram o espírito do Rei. Mito ou verdade, o fato é que o reino bestializou-se. Quando alguém transgredia e o Palácio não castigava, criticavam o criminoso e esqueciam a omissão de quem devia fiscalizar, julgar e, se necessário, punir. Morria, assim, a crença na Justiça e renascia a impunidade. Desprotegido, o povo voltou a ser o que era: nada. Esse cinismo varou fronteiras e chegou ao nosso País. Leitor, observe o atual raciocínio político. Ontem, criticavam os erros do José; hoje criticam os do João. Amanhã, vão criticar os da Maria ou os de outra graça qualquer. Sem nada a temer, preferem alimentar a hipocrisia e zombar do povo a combater os males que subjugam nossas instituições e impedem-nas de fazer justiça. (*) É contador.

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