Opinião
Briga de comadres
| Ronald Mendonça * Já me daria por satisfeito se conseguisse concentrar os meus comentários numa calamidade pública chamada SUS. Crítico habitual da ?República Corrupta dos Campanheiros?, por uma questão de justiça, não considero o SUS obra exclusiva do PT & Cia. O Sistema Único de Saúde é, antes, um monstrengo esculpido a várias mãos, ao longo de sucessivos governos. Curiosamente incensado por quem nele não trabalha ou não utiliza seus precários serviços, se no papel é uma obra de arte, na prática revelou-se altamente perigoso (apesar de inevitável) para consumo da população. Agora mesmo os jornais estão publicando matéria que revelam a preocupação do Ministério Público em esmiuçar o que se esconde atrás da decisão dos hospitais de Maceió em restringir o atendimento aos usuários do sistema. É mais uma, certamente não será a última, das crises que acometem a assistência médica pública nas Alagoas. Aliás, para tornar a ação menos episódica, seria mais efetivo se o Ministério Público visitasse mais freqüentemente a Unidade de Emergência Armando Lages. Talvez a instituição (MP) conseguisse desvendar o segredo de os doentes da UE estarem sempre amontoados. Há outros mistérios. Um deles - motivo das atuais reivindicações - refere-se ao não pagamento integral das contas hospitalares. Com efeito, por insensibilidade, incompetência ou impotência (preferiria acreditar na última alternativa), virou tradição em Maceió deixar-se, sem qualquer justificativa, um resíduo de 10% do valor das faturas. Ora, todos sabem que o SUS remunera muito mal. Nas clínicas conveniadas, despesas X receita vivem empatadas (com freqüência, predomina o vermelho). Se o SUS faz ?forfait? na hora de pagar, não é difícil se prever o tamanho da quebradeira. Os rombos no SUS atingem a todos, embora os mais penalizados sejam os mais pobres. Ainda que o leitor esteja incluído nos 10% por cento da população detentores de um plano de saúde privado, em algum momento da sua vida vai sentir na pele a amargura de um sistema público de saúde falido. Nem que seja como cidadão. Ontem estava previsto o último bate-boca dos candidatos à Presidência da República. Com a reeleição de Lula assegurada, segundo os institutos de pesquisa, são sombrios os horizontes para a saúde. Até porque, nessa área, o PSDB de Alckmin não provou ser mais criativo. Nesse aspecto, o debate tem tudo para ser uma briga de comadres. (*) É médico e professor da Ufal.