Opinião
No mundo de ansiedade
| Dom Fernando Iório * Numa época de ansiedade, uma das poucas alegrias é a de o ser humano ser forçado a tomar consciência de si mesmo. Quando a sociedade contemporânea, nessa fase de reversão de valores, não consegue apresentar-nos aquela nítida visão do que somos e do que devemos ser, vemo-nos lançados, conforme as palavras de Matthew Arnald, à busca de nós mesmos. Aventurar-se, afirma Kierkegard, causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. No sentido mais elevado, aventurar-se é, precisamente, tomar consciência de si próprio. Somente a falsa procura de si mesmo transforma a solidão em prisão, no dizer de Nietzsche. E ficamos indagando: como é possível alcançar a integração interior numa sociedade tão desintegrada? Ou, então: como empreender a longa evolução para a auto-realização numa época em que quase nada é certo, quer no presente ou em perspectiva de futuro? O psicoterapeuta não dispõe de respostas mágicas. A nova luz que a psicologia profunda lança sobre os motivos ocultos dos nossos pensamentos, das nossas emoções, tudo será de grande ajuda, sem dúvida alguma, na busca do próprio eu. Entretanto, pela ciência adquirida, em contacto com pessoas que lutam para resolver seus problemas, possui o psicoterapeuta aquele extraordinário privilégio, embora, às vezes, penoso, de acompanhar os ansiosos em sua luta íntima e profunda para alcançar sua nova integração. Alfred Adler disse, certa feita, ao referir-se à escola para crianças que fundara em Viena: ?Os alunos ensinam aos mestres?. Isso vem sempre acontecendo entre psicoterapeutas e confessores. Não pode o terapeuta deixar de ficar profundamente grato pelo que aprende sobre a importância e a dignidade da vida, com aqueles a quem chama de pacientes. Bem assim o confessor a respeito de seus penitentes. Por que tanta ansiedade, no início de milênio e de um novo século? Achamos que o problema fundamental é o vazio, quer dizer que nem sempre as pessoas sabem o que desejam, não tendo uma idéia nítida do que sentem, nem mesmo uma experiência definida de seus próprios desejos e necessidades. Oscilam, desse modo, para um lado e para outro, sentindo-se dolorosamente impotentes, porque ocas e vazias. E porque vazias são sacos de plástico, capazes de amontoar leviandades e mentiras a respeito de quantos sabem o que querem na vida e são reconhecidos pela sociedade. Essas pessoas necessitam de voltar-se para si mesmas. Somente assim se encontrarão. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.