Opinião
Berlim: a aristocr�tica capital da Alemanha
| Lysette Lyra * Cheguei a Berlim numa bela tarde ensolarada e fria do fim da primavera, depois de 18 horas de viagem, rumo ao País germânico, apertada num moderno avião da Lufthansa, porém superlotado, com os assentos incomodamente espremidos para comportar todos os passageiros. Sem poder dormir, ao chegar à confortável suíte equipada para pessoas com deficiência de locomoção, a mim oferecida pelo luxuoso hotel Berlim Hilton, só tive um desejo, dormir. Dormir até me fartar, para estar disposta a explorar a cidade que visitara, a última vez, em 1968. No dia seguinte, depois de desfazer minhas malas, tomar um banho quentinho e um farto breakfast, aboletei-me na minha cadeira de rodas, que é uma grande amiga nas viagens, e ganhei as ruas de mapa na mão, ansiosa para rever essa capital cuja destruição na Segunda Guerra Mundial foi decisiva para o seu término. Os seus fantasmas já não assombram os berlinenses, que alegres e livres de tantas opressões, recuperam-na cada dia, refazendo os prédios históricos e levantando novos, na mais moderna e ousada arquitetura, proporcionando, às novas gerações, o direito de viver confortavelmente e com um sorriso nos lábios. Há gruas por toda parte trabalhando para reerguer a cidade, sobretudo do lado oriental, que foi tão negligenciada pelos comunistas. Ai só deixaram alguns apartamentos mal construídos e feios. O passado tenebroso deve ser lembrado. A igreja comemorativa do Kaiser Guilherme não foi refeita para recordar aos berlinenses os horrores da guerra; assim como permanecem restos do muro construído pelos russos para impedir a evasão do povo que fugia dos maus tratos, na zona oriental. São guardados: o bunker onde Hitler cometeu o suicídiu em companhia de Eva Braun, que não pode ser completamente destruído tal a grossura das paredes; o local onde ficavam a Gestapo e a SS, o terrível órgão de inteligência nazista que levou à morte tanta gente. Há uma marca feita de paralelepípedos, no meio do asfalto, designando o local por onde passava o muro russo, e, em uma das antigas entradas deste, permanece uma guarita guardada por dois soldados americanos com as bandeiras de seu País, lembrança daquele aviltante cerceamento da liberdade. Por mais terríveis que tenham sido as lições da guerra para a humanidade, ela nunca estará livre da influência perniciosa dos idealismos loucos. Há sempre mentecaptos admiradores dessas ideologias paranóicas que tentam trazê-las de volta a atualidade, desejosos de se tornarem igualmente poderosos como seus heróis do passado. O neonazismo existe e o governo tem muito cuidado em anulá-lo. É o resultado de poderes remanescentes de políticas adotadas durante a Guerra Fria. (*) É escritora.