Opinião
Dez maracan�s
| Jorge Briseno * As represas de Guarapiranga e Billings, em São Paulo, são reservatórios de enorme importância estratégica para o fornecimento de água. No entanto, as áreas em torno desses mananciais estão sendo ocupadas de forma desordenada e bastante intensa. 1,5 milhão de pessoas vivem, irregularmente, próximas às margens das duas represas provocando desmatamento, assoreamento, lançamento de lixo e de esgoto. São Paulo, portanto, está presa a um ciclo vicioso. Quanto mais as áreas vizinhas aos mananciais são ocupadas sem preocupações ambientais, mais aumenta a deterioração da qualidade da água desses corpos hídricos e, quanto mais suja a água, maiores os custos de tratamento. A empresa de saneamento do Estado, para tornar a água dessas represas potável, já adiciona, nas suas estações, nada menos do que 170.000 toneladas por ano de produtos químicos ao processo de tratamento. Isso seria suficiente para encher dez estádios do tamanho do Maracanã. Perdendo a guerra contra a poluição, São Paulo recorre a essas armas químicas, em quantidades cada vez maiores. No Rio de Janeiro, a situação é semelhante. Quase 8,5 milhões dependem das águas do Rio Guandu. Os níveis crescentes de poluição do rio exigem, para a mesma quantidade de água a ser tratada, maior quantidade de produtos químicos. A quantidade chega a atingir 880 toneladas. Um número absurdo. No Rio de Janeiro, torna-se cada vez mais freqüente a paralisação da estação de tratamento do Guandu devido à chegada de uma água bruta cada vez mais de pior qualidade. No ano passado, na estação do Guandu, foram 7,2 bilhões de litros de água que, de tão poluídos, não puderam ser tratados. Isso é água suficiente para abastecer Maceió durante um mês. Por falar em Maceió devemos lembrar que a cidade é cercada por vários corpos hídricos de pequeno curso que são potenciais mananciais para o seu abastecimento, além dos já utilizados. Rios como o Meirim-Saúde, do Senhor, Guaxuma, Niquim e Remédios, se devidamente preservados, poderiam, no futuro, ser utilizados para reforçar o abastecimento de água da região metropolitana da capital. Temos um grande desafio pela frente. Se as bacias hidrográficas desses rios e riachos não forem preservadas da ocupação desordenada e do desmatamento, a grande Maceió, da mesma forma que o Rio e São Paulo, terá que gastar cada vez mais para tratar a água que irá consumir. Com um agravante: não somos tão ricos quanto os paulistas e cariocas. (*) É engenheiro e presidente da Casal.