Opinião
Viver e morrer
| Milton Hênio * Na ultima quinta feira, Dia de Finados, fui ao cemitério visitar os meus mortos. Cemitério cheio e em cada túmulo o mesmo ritual: flores, lágrimas, orações e muita saudade. Saudade de momentos vividos, de momentos inesquecíveis, de companheirismo e solidariedade. Flores em abundancia. Até nas flores reside estranha sorte, umas enfeitam a vida outras enfeitam a morte. Lá estavam os túmulos enfileirados, túmulos frios, nivelando pobres e ricos, doutores e analfabetos, engraxates e generais. ?Tu és pó e em pó retornaras um dia?, avisa-nos a Escritura Sagrada. O fato é que todos nós, um dia, faremos uma longa viagem sem retorno. Sabendo dessa fragilidade em nossa passagem terrena, devemos dentro do possível, aproveitar e viver em plenitude cada momento. A vida é como a roseira, tem perfume e espinhos, cabe a cada um de nós saber distingui-la. O fato é que a nossa vida terrena é fugaz, comparada até na Bíblia como a neblina, como um sopro, como um fio de fumaça. Nossa existência é um misterioso rio sagrado. Felizes os que se debruçam sobre ele, ou navegam em suas águas, cantando salmos de gratidão. Todos nós sabemos que a cada dia estamos morrendo. A cada dia estamos nos aproximando da nossa morte. A morte é nossa companheira. Não podemos separá-la da vida. Enquanto ela não chegar contemple as belezas da vida, procure viver em plenitude, feliz com o que você tem, com o que você é. A vida vai passando, mas enquanto ela existe seja apaixonado por ela como foi o próprio Cristo. Mostrou-nos que a vida é o maior espetáculo do mundo. Ele nos deu lições inesquecíveis da aurora ao ocaso de sua vida, enquanto dizia belíssimas palavras em sua caminhada. Tudo passa na vida, porque essa caminhada terrena é passageira. Eterna é a outra vida. Quando você estiver angustiado, impaciente, cheio de problemas, olhe para o céu, respire fundo, veja a beleza das estrelas, penetre na imensidão do infinito e descanse a sua mente. Temos uma existência que nos cabe administrar e assumir; procure retocá-la com lucidez e esmero como faz o artista em sua obra. Enquanto a morte não chega, vamos caminhando, bebendo um lindo pôr-do-sol, redescobrindo cada dia coisas boas, servindo, amando e olhando a vida bem de frente, saudando com alegria cada novo dia como se fosse o último. Faça como disse o grande cientista Pasteur em sua última aula na Sorbone: ?Qualquer que seja a profissão que abraceis, proponde-vos um fim elevado, tendo o culto dos grandes homens e das grandes coisas, trabalhai e perseverai?. (*) É médico ([email protected]).