Opinião
Religi�o do livro
| Dom Fernando Iório * Destaco, de início, a relação intrínseca existente entre Teologia e Literatura, para afirmar: o Cristianismo é a religião do livro. Não se trata de uma assertiva ingênua capaz de ignorar a dinâmica reinterpretativa da Tradição oral, através da caminhada histórica da Fé. Dizer que o Cristianismo é uma religião do livro significa, antes de tudo, descobrir que boa parte de sua força e poder de sobrevivência a alguns impérios e sustentação de outros deveu-se ao fato de que os pilares de seu anúncio e os fundamentos de seu conteúdo foram traduzidos em forma de livros, cartas, contos, alegorias, poemas, narrativas... Muitos desses livros adquiriram o status de canônicos, denunciando a importância do Cristianismo como uma das três religiões do livro, ao lado do Islamismo e do Judaísmo. Afirmar o Cristianismo como religião do livro não significa tenha sido sua leitura, de todo, disseminada pelo mundo, mas revela que muitas das imagens e expressões que dão corpo às diversas tradições do Cristianismo se baseiam naquilo que está escrito no livro da Bíblia. Declarar o Cristianismo religião do livro é afirmar que boa parte de seu poder reside no fato de ser literatura. Esse foi o aspecto que sempre esteve presente não só entre teólogos, senão também entre ateus atraídos pela literatura. Justamente por ser literatura é que o Cristianismo deverá, ao lado do livro, incluir sempre a questão da memória e da narrativa. Sendo literatura, o Cristianismo não escapa a uma leitura que tenha em mente não somente os ditames dos interesses confessionais, senão também os bens culturais. Basta ver como a memória da salvação está escrita em diversas formas, com estilo variado, produzindo importante dinâmica significativa. Textos bíblicos despertaram, no imaginário ocidental, temas com os quais aprenderam as pessoas a conviver e a partir dos quais construíram seus valores e cultivaram suas inquietações. Bom seria que se fizessem nos Seminários, no Curso de Teologia, ou nas Faculdades Católicas, estudos sobre a compreensão da história do Natal em ?Morte e Vida Severina?, de João Cabral de Melo Neto, da relação entre Deus e o Diabo em ?Grande Sertão: Veredas?, de Guimarães Rosa, ou minuciosa leitura teológica sobre a ?Invenção de Orfeu?, de Jorge de Lima. São sugestões que coloco, também, nas mãos dos competentes mestres que dirigem os Cursos de Especialização na Academia Alagoana de Letras. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.