Opinião
O Brasil precisa decolar
| Josimar Santos * Verificamos, no feriado de finados deste ano de 2006, uma crise sem precedentes no transporte aéreo nacional. Controladores de vôo, insatisfeitos com salários e demais condições de trabalho, resolveram iniciar uma ?operação padrão?, ou seja, monitorar apenas aquele número de aeronaves previsto nos regulamentos. Que aconteceu? Instalou-se o caos! A imprensa televisada ou escrita deu grande destaque para os acontecimentos. Os telejornais bombardearam seus espectadores com sucessivas reportagens, mostrando todo o transtorno causado. O acompanhamento dos fatos ocorridos foi constante, com destaque para os dramas pessoais. Com freqüência, mostravam aquela família que não conseguiu embarcar para a tão sonhada viagem, ou aquele casal que teve de passar a ?lua-de-mel? no saguão do aeroporto. O presidente da República convocou uma reunião de emergência. Políticos e outras personalidades foram frequentemente entrevistados e a opinião era unânime: isso é um absurdo, uma vergonha, um desrespeito. Concordamos que os acontecimentos acima narrados foram realmente um absurdo, uma vergonha e um desrespeito. Contudo, muito mais vergonhoso e desrespeitoso que a fila no aeroporto é a fila no posto de saúde. Muito mais absurdo que esperar doze horas para embarcar em um avião, é esperar doze meses para realizar uma cirurgia pelo sistema único de saúde. Muito mais triste que a família dormindo no aeroporto, é a família instalada embaixo da marquise de uma loja. Onde estamos querendo chegar? Infelizmente, na conclusão de que a sociedade brasileira, de ordinário, preocupa-se mais com o supérfluo do que com o que verdadeiramente importa. É muito mais relevante a decolagem do Brasil, proporcionando um mínimo de condição de vida para seus habitantes, que a decolagem de aviões que transportam a classe média nos seus momentos de lazer. Não estamos dizendo que a presteza no transporte aéreo não seja relevante, mas sim que muito mais crítico é não morrer de fome ou ter um atendimento médico digno. Queremos ver, de agora por diante, a imprensa, todos os dias, na porta dos hospitais, ou na noite fria das marquises, em tempo real, diuturnamente, fazendo a narrativa da vida dos desvalidos. Quem sabe, assim, a sociedade fique indignada e o presidente da República, o governador de Estado, o prefeito, todos os dias, convoque uma reunião de emergência para tentar resolver o problema. Decola Brasil! (*) É Juiz do Trabalho - TRT 19ª Região.