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O inverno e as armadilhas da boemia...

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| Fátima Albuquerque * Alguém me disse que aqui na Escandinávia o inverno é longo e escuro, por isso as pessoas ficam mais deprimidas. Penso eu com meus botões: que beleza para a boemia! Isso me faz lembrar uma cena que presenciei alguns anos atrás. Era sábado, final de tarde, e lá estávamos rumo à boemia. O bar, ponto de encontro de estudantes e boêmios de toda sorte, era quente e apertado, mas a música tocada e cantada dava vida, movimento e espaço para todos que ali se amontoavam. Numa mesa de canto, arrodeamos as cadeiras e lá ficamos a bebericar. Uma voz ecoa no salão ao mesmo tempo em que fortes e breves palmas anunciam a obrigatoriedade da atenção. O cantor, um mulato de calça e camisa bege, se rebola, gesticulando com os braços qual um profissional. O momento é dele e a música, ele oferece para ela, sua musa, uma jovem também mulata que, ingenuamente, olha para os lados como se estivesse à procura de algo perdido. Na mesa do lado, um velho lobo observa a caça. As palmas reafirmam o sucesso do cantor, que se deixa levar pela emoção, emendando as toadas, uma após a outra. Ao redor da mesa dela, canta e baila qual um galo velho na dança do acasalamento. Afinal, sua musa tinha olhos só para ele! E lá se vai o cantor ao som dos músicos, até que de repente, se dá conta que sua musa não está mais só. O velho e ardiloso lobo se aproximara e, entre um requebrado e outro, atracara a presa pela cintura, rodopiando pelo salão. A voz desafina, mas ele não perde o tom e, numa manobra de mestre, se posta em frente ao casal e canta ?Alguém me disse...?. A moça, como se nada entendesse do que se passava, requebrava sensualmente agarrada no velho lobo. O cantor não desiste e investe, arriscando um recado para o lobo: ?minha linda normalista não pode casar ainda,...só depois de se formar...?. O lobo, com minúsculos e irrequietos olhos verdes a tudo olhava, passando sinais de vitória. A normalista enquanto não casa, dança com ele! Mas, a cerveja estava boa e aquela, já era a quarta. Hora de tirar a ?água do joelho?! Tudo se passou em não mais que um minuto e, já o cantor, de boca miúda, fervilha promessas no ouvido da mulata. Lá se vão os dois abraçados para fora do salão. O velho lobo, voltando do toilete, reconhece a derrota e canta ?vem Madalena, quem ama não tem preconceito...? . Já na porta, o cantor olha ironicamente para o velho lobo, pisca o olho e leva a mulata embora. O lobo, em resposta, avisa para a mulata: ?laranja madura, na beira da estrada, tá bichada Zé ou tem maribondo no pé?.... (*) É professora da Ufal.

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