Opinião
R�dio Nacional
| Marcos Davi Melo * Imaginem um grande palco, com um bem montado cenário, onde sob o afinado som de uma banda, na qual se sobressaíssem um virtuoso piano e uma fina clarineta, desfilassem as mais importantes figuras que marcaram uma das melhores épocas da música nacional, apresentadas ao vivo por Paulo Gracindo e César de Alencar. Tudo isto no conforto de uma ampla e macia poltrona e com o ar condicionado perfeito? Para os mais vividos isto só seria possível se voltássemos no tempo da gloriosa Radio Nacional, quando inclusive não existia ar condicionado. Todavia, isto pode ser visto com insuperável deleite no espetáculo atualmente apresentado no Teatro Vila Lobos no Rio de Janeiro, que revive para alguns e mostra pela primeira vez para outros uma era de ouro de nossa música. Como ninguém é de ferro, aproveitamos um congresso no Rio para usufruir um pouco do muito que a cidade maravilhosa oferece. Este espetáculo que está em cartaz há bastante tempo, além do atraente tema, está entre os mais recomendados pela crítica, o que nem sempre é uma garantia, mas neste caso o é. Lá, um elenco dos mais versáteis e preparados, se reveza e interpreta um a um, os maiores nomes do cancioneiro nacional de então. Ary Barroso e suas melhores criações, Emilinha Borba, Marlene, Cauby Peixoto, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e muitos outros se apresentam redivivos, não só cantando como em esquetes cômicos e alguns poucos dramáticos. Um guarda-roupa excepcional cobre de glamour os personagens de uma época de sonhos, romantismo e paixões, que criadas e emitidas ao vivo nos auditórios da Rádio Nacional, na antiga capital federal, se propagavam via as ondas de rádio para todo o País. Após duas horas e meia de cultura nacional da melhor qualidade, que passaram rapidamente, nos dirigimos a uma pequena e acolhedora cantina no Leme, conhecida por sua excelência na culinária do norte da Itália e por seu ambiente propício aos casais harmônicos. Um encorpado vinho tinto chileno, bem estruturado, com retrogosto e buquê adequados, um antepasto sedutor, um risoto de perdiz, uma massa de funghi porcini, sobremesa e para ajudar a digestão, uma grapa italiana perfeita, que o atencioso maitre repetiu por conta da casa. Pairam ainda nos nossos ouvidos e mentes, as canções e a nostalgia de um tempo em que não vivemos, mas que sobrevivem pelo talento e pelo esforço dos que mantêm a nossa cultura viva. (*) É médico e professor da Uncisal.