Opinião
O Incor e os outros hospitais
| Marcos Davi Melo * Há algum tempo recebemos na Santa Casa uma auditoria do Ministério da Saúde que vinha inspecionar se os equipamentos cedidos em comodato pelo Ministério estavam funcionando adequadamente e se atendiam devidamente aos pacientes do SUS. Após verificar in loco tudo o que queria, a auditora preencheu um amplo relatório, declarou-se plenamente satisfeita e retornou para Brasília. Cerca de 50 dias depois recebemos do mesmo Ministério uma cobrança: por que os mesmos equipamentos não estavam funcionando? Após exaustivas demarches conseguimos que o Ministério aceitasse como comprovação do funcionamento adequado dos equipamentos uma cópia do relatório de sua funcionária (que felizmente tínhamos conosco), mas insistimos que estaríamos à disposição para qualquer outra vistoria. Foi inevitável a sensação de que o andar de cima não se comunicava com o andar de baixo daquele importante Ministério. A crise do Incor de São Paulo explodiu poucos dias após o IBGE publicar um amplo relatório aonde acena: nos últimos dez anos houve uma redução acentuada dos leitos hospitalares no Brasil, estando hoje com as taxas bem abaixo das preconizadas pela OMS. Procurado pela imprensa o Ministério afirmou que houve grande melhoria e ampliação da prevenção no País, o que tornou desnecessário os leitos hospitalares. Isto seria uma conquista, um avanço real se verdadeiro o fosse. Mas infelizmente não o é. É só ver a UE do Trapiche, ou qualquer outro hospital que atenda aos pacientes do SUS. Existe um monte de pacientes amontoados, se acotovelando, enquanto um grupo muito maior, desesperado, perambula de um hospital para outro atrás de um internamento. O alegado avanço na prevenção é uma falácia, que pode ser constatada com uma simples olhada: a dengue avança e se apresenta em formas cada vez mais graves, com complicações que exigem internamentos; o câncer continua sendo diagnosticado na maioria dos casos em fases avançadas. O diabetes está fora de controle, assim como as doenças cardiovasculares, os traumas, os AVCS, etc. O Incor é um dos hospitais mais bem aquinhoados com recursos em todo o País. Mesmo assim está falido. Pratica boa medicina como muitos outros também o fazem pelo País. As únicas instituições hospitalares que têm saúde financeira amplamente satisfatória são aquelas que atendem unicamente aos convênios privados. Uma das maiores razões deste caos (mas não a única) é uma tabela do SUS defasadíssima, sem reajustes há mais de 10 anos. (*) É médico e professor da Uncisal.