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Opinião

Perda de comunica��o pessoal

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| Dom Fernando Iório * Não poucas pessoas acham quase impossível, em nosso tempo, compreender Sócrates, insistindo com o ?conhece-te a ti mesmo?, no mais difícil de todos os desafios. Ainda mais são muitos que julgam quase impossível compreender o que desejava Kierkegaard com a assertiva: ?Aventurar-se, no sentido mais elevado, é precisamente tomar consciência de si mesmo?. É que, com a perda do senso do próprio ?eu?, desapareceu a linguagem de comunicados profundamente pessoais. Este é um aspecto da solidão vivida no mundo ocidental. Seja-nos permitido trabalhar a palavra ?amor? que deveria ser a mais importante para transmitir sentimentos pessoais. Entretanto, quando alguém a emprega quem a ouve pensa, de logo, em amizade, em ser preferido, talvez num amor cinematográfico, na emoção sentimental das canções populares, seja lá aquilo em que se pensa, reveste-se o vocábulo amor de nuanças variadas. O mesmo ocorre com quase todas as palavras importantes não técnicas: verdade, coragem, liberdade, integridade, honestidade, corrupção. Inúmeras pessoas emprestam às palavras conotações pessoais diferentes das de seu vizinho. Fora de dúvida, possuímos excelente glossário para assuntos técnicos, observa Erich Fromm. Observe-se como os usuários de computadores, quase todos, são capazes de enumerar, com clareza, as diferentes partes de seu aparelho de digitação. Mas, quando se trata de um relacionamento pessoal significativo, como se torna paupérrima a linguagem: silabamos, gaguejamos, isolamo-nos, como um surdo-mudo que só pode comunicar-se com sinais. Trata-se de pessoas que, por instantes, se tornaram vazias, de que nos fala Eliot: ?Nossas vozes secas,/Aos murmúrios,/São vazias de sentido./Como o vento na grama seca/Ou ratos sobre vidro quebrado/No sótão empoeirado?. A perda da eficácia da linguagem, por estranho que pareça, é sintoma de uma época histórica conturbada. Quando alguém se debruça sobre a ascensão e a queda de uma ?era?, nota, de repente, como a linguagem é expressiva e vigorosa ou débil e inexpressiva, nos momentos diversos de apogeu ou de falência. Quando uma cultura se encontra na fase da evolução para a unidade, reflete, na linguagem, coesão e força; ao contrário, em processo de dispersão e desintegração, perde o seu vigor. A comunicação pessoal sempre caminha, para mais e para menos, conforme o apogeu e a queda do processo cultural. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.

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