Opinião
A ditadura da silhueta
| Izabel Brandão * Nalini tinha uns 23 anos e era estudante de medicina quando a conheci. De origem indiana, era uma menina bonita, de olhos negros intensos, que gostava de acentuar com lápis escuro. Gostava também de desenhar os lábios levemente pintados de baton. Era magra, muito magra. Nalini tinha hábitos estranhos: às vezes, no refeitório do nosso alojamento, apenas beliscava a comida e dizia que estava ?monstruosamente? gorda e outras vezes comia tanto que parecia estar se despedindo do mundo. Altos e baixos que nunca consegui compreender direito até ela me dizer que sofria de anorexia e bulimia alternadamente. Exauria-se em exercícios físicos para ?não engordar?; comia de menos, comia de mais. Fazia terapia. Lia sobre o assunto; conhecia todos os meandros dessa doença que eu achava ser privilégio de primeiro mundo até descobrir que esse é um mal da cultura. Vivemos um mundo ditado pela forma que põe especialmente as mulheres numa camisa de força exigindo delas uma silhueta absurdamente descompromissada com a realidade. É o que as feministas chamam de ?complexo de moda-beleza? (Susan Bordo) que pode levar à anorexia (ou ao seu inverso, a bulimia). Já estudos sobre o corpo das mulheres a partir da mídia contemporânea levaram o professor Jean Charles Zozzoli, da Ufal, a chamar de ?ditadura da silhueta? o mal que acomete muitas mulheres (incluindo a anorexia) que forçam a barra na vã ilusão de atingir um ideal mercadológico. Esses estudos, tanto pela via do feminismo quanto pela via da mídia (e outros estudos na área da saúde), apontam para o perigo a que estamos todos submetidos. As feministas chamam o que ocorre com o corpo anoréxico, de ?protesto inconsciente?, ou seja, o exagero da magreza é uma forma do sujeito dizer ao mundo o que lhe está acontecendo psiquicamente. É algo que pode levar a sérias doenças ou à morte, como ocorreu com a jovem modelo brasileira. É preciso que adolescentes especialmente preocupadas com o corpo atentem para os perigos inerentes aos tantos apelos midiáticos que recebem. Cada vez que modelos macérrimas exibem suas imagens corporais na TV, nas revistas, ou nos outdoors, isso é um atentado contra a saúde física e mental de muitas meninas, de muitas mulheres. É também uma ofensa social para um País que ainda vive à míngua; e cujos sinais de trânsito, calçadas, praças e marquises estão cheias de exemplos de ?magreza? política. Nosso olhar precisa ser menos egoísta e perceber esses protestos diários em corpos sociais que nos mostram a nossa ?inconsciência?. (*) É professora da Ufal.