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Opinião

Dom Quixote vive

| Sérgio Costa * Ao menor sinal de injustiça, ele vestia uma velha armadura, empunhava uma enferrujada lança e montava em seu desanimado cavalo Rocinante. O ritual era ingênuo, os propósitos raramente eram alcançados, mas os sonhos eram nobres: combater

Por | Edição do dia 24/11/2006 - Matéria atualizada em 24/11/2006 às 00h00

| Sérgio Costa * Ao menor sinal de injustiça, ele vestia uma velha armadura, empunhava uma enferrujada lança e montava em seu desanimado cavalo Rocinante. O ritual era ingênuo, os propósitos raramente eram alcançados, mas os sonhos eram nobres: combater a opressão. Assim nasceu Dom Quixote, o incorrigível sonhador. Penso que o escritor espanhol Miguel de Cervantes imortalizou o seu personagem ao perceber que ele vive fervilhando dentro de cada um de nós. Os meus sonhos beiram a utopia. No campo político, por exemplo, várias foram as expectativas oníricas que me levaram a votar em Lula no primeiro mandato. Duas delas merecem destaque absoluto: fortalecimento da justiça e combate à impunidade. Aliás, não troco estes sonhos por nenhum outro, pois acredito que somente eles poderão conquistar a confiança e estimular os investimentos de que tanto necessitamos para crescer. A sobrevida da impunidade, por outro lado, permite a adoção de procedimentos que inviabilizam estes sonhos. De fato, é preciso ser muito audacioso ou aventureiro para realizar investimentos fixos em um País do qual se tem notícia que os governos compram parlamentares e loteiam cargos públicos em troca de apoio político. Uma Nação assim representada andará sempre à deriva e terá dificuldades de encontrar os caminhos do desenvolvimento. Deve ter sido uma ingenuidade muito grande, pois votei naquele Lula radical, xiita mesmo, não para tentar impedir críticas, afinal, é a sociedade quem vai julgá-las ao dirigir o olhar para o sucesso ou o insucesso do seu governo. Não votei num Lula reformista para romper contratos, mas também não votei pela preservação da cultura do calote e da sonegação em prejuízo dos investimentos de que o nosso País tanto necessita. Imaginei um Lula independente e criterioso em suas ações. Um Lula corajoso, que empunhasse a bandeira da pátria para fortalecer nossas instituições fiscalizadoras e instigá-las a perseguir políticos gastadores, picaretas e ladrões. Por fim, sonhei um Lula extremamente intolerante aos privilégios que nos sufocam. Lula frustrou meus sonhos. Vinguei-me nas urnas. Mas a maioria concedeu-lhe mais uma vez a honra de presidir o nosso País. Talvez seja uma visão quixotesca, mas espero que o Lula desça do “Rocinante” poder e procure enxergar e ouvir; cobrar e responsabilizar; denunciar em vez de proteger; informar-se e informar a nação sobre tudo que vier cercear os sonhos de milhões de brasileiros que ainda sonham os sonhos que ele dizia sonhar. (*) É contador.

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