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As motos de Arapiraca

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| Ronald Mendonça * Vítima de uma corrida ensandecida pelas ruas do Rio de Janeiro, o fotógrafo barbudo da novela Páginas da Vida amarga uma paraplegia por lesão medular. Passada a fase mais crítica da doença, quando a sobrevivência física fica em jogo, agora o acidentado encara o desafio de conviver com uma deficiência física permanente. Doravante, suas pernas, atrofiadas pela inclemência do traumatismo, serão trocadas pelas rodas de uma cadeira. O romantismo novelesco certamente irá evitar chocar os telespectadores com detalhes sórdidos. Atos como urinar e defecar, discretos e corriqueiros para quem tem saúde, deverão ser postos de lado, mesmo se sabendo que são balizadores na readaptação social, uma vez que a maioria dos lesionados não têm controle sobre essas funções. O galanteador fotógrafo está encurralado pelas limitações da doença. É um amputado funcional. Resta ao psiquismo debater-se entre a submissão à paralisia (ruminando sua infelicidade para o resto da vida), ou fazer dela uma trincheira de lutas. A essa altura, mudar significa sobreviver, mesmo porque ninguém consegue tocar a vida do mesmo jeito depois de uma tragédia dessas. Na vida real, nem sempre um paraplégico torna-se um expoente, como o escritor Marcelo Paiva, que viu sua adolescência conspurcada por uma lesão irreversível. Graças a sua produção literária, Paiva deixou de ser apenas o filho do deputado Rubens Paiva, torturado e morto pela ditadura. Marcelo Paiva não é um caso isolado. Estigmas dolorosos, imperfeições físicas muitas vezes são o combustível para realizações quase impossíveis, caso, por exemplo, do abnegado político alagoano Gerônimo da Adefal. Teço esses comentários, pensando no número de acidentados de motos em Arapiraca. Não é por acaso essa freqüência. Conhecida pela pulsão progressista de sua gente, as motocicletas viraram símbolos de status social e de progresso da cidade. Na ausência de medidas preventivas de trânsito, para os médicos, as motos não passam de armadilhas. O fato é que o volume dos acidentes em Arapiraca envolvendo motos impressiona a todos. Além do sofrimento agudo provocado pelas perdas de vidas (a maioria gente jovem), há as seqüelas invalidantes. Os prejuízos são de toda ordem. Para completar, a mendicância é um fantasma a rondar os leitos dos lesionados. Nesse momento, descartado o retorno ao lombo do jegue, com certeza outras providências precisam ser tomadas. (*) É médico e professor da Ufal.

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